Questão a5be517a-e0
Prova:Fadba 2013
Disciplina:Português
Assunto:Vocativo e Termos Acessórios da Oração: Adjunto Adnominal, Diferença entre Adjunto Adnominal e Complemento Nominal, Adjunto Adverbial e Aposto, Análise sintática, Sintaxe

A alternativa que não contém um adjunto adverbial é:

História de um nome


No capítulo dos nomes difíceis têm acontecido coisas das mais pitorescas. Ou é um camarada chamado Mimoso, que tem físico de mastodonte, ou é um sujeito fraquinho e insignificante chamado Hércules. Os nomes difíceis, principalmente os nomes tirados de adjetivos condizentes com seus portadores, são raríssimos, e é por isso que minha avó a paterna - dizia:

- Gente honesta, se for homem deve ser José, se for mulher, deve ser Maria!

É verdade que Vovó não tinha nada contra os joões, paulos, mários, odetes e - vá lá - fidélis. A sua implicância era, sobretudo, com nomes inventados, comemorativos de um acontecimento qualquer, como era o caso, muito citado por ela, de uma tal Dona Holofotina, batizada no dia em que inauguraram a luz elétrica na rua em que a família morava.

Acrescente-se também que Vovó não mantinha relações com pessoas de nomes tirados metade da mãe e metade do pai. Jamais perdoou a um velho amigo seu - o "Seu" Wagner - porque se casara com uma senhora chamada Emília, muito respeitável, aliás, mas que tivera o mau-gosto de convencer o marido de batizar o primeiro filho com o nome leguminoso de Wagem - "wag" de Wagner e "em" de Emília. É verdade que a vagem comum, crua ou ensopada, será sempre com "v", enquanto o filho de "Seu" Wagner herdara o "w" do pai.

Mas isso não tinha nenhuma importância: a consoante não era um detalhe bastante forte para impedir o risinho gozador de todos aqueles que eram apresentados ao menino Wagem. Mas deixemos de lado as birras de minha avó - velhinha que Deus tenha, em Sua santa glória - e passemos ao estranho caso da família Veiga, que morava pertinho de nossa casa, em tempos idos.

"Seu" Veiga, amante de boa leitura e cuja cachaça era colecionar livros, embora colecionasse também filhos, talvez com a mesma paixão, levou sua mania ao extremo de batizar os rebentos com nomes que tivessem relação com livros. Assim, o mais velho chamou-se Prefácio da Veiga; o segundo, Prólogo; o terceiro, Índice e, sucessivamente, foram nascendo o Tomo, o Capítulo e, por fim, Epílogo da Veiga, caçula do casal.

Lembro-me bem dos filhos de "Seu" Veiga, todos excelentes rapazes, principalmente o Capítulo, sujeito prendado na confecção de balões e papagaios. Até hoje (é verdade que não me tenho dedicado muito na busca) não encontrei ninguém que fizesse um papagaio tão bem quanto Capítulo. Nem balões. Tomo era um bom extrema-direita e Prefácio pegou o vício do pai - vivia comprando livros. Era, aliás, o filho querido de "Seu" Veiga, pai extremoso, que não admitia piadas. Não tinha o menor senso de humor. Certa vez ficou mesmo de relações estremecidas com meu pai, por causa de uma brincadeira. "Seu" Veiga ia passando pela nossa porta, levando a família para o banho de mar. Iam todos armados de barracas de praia, toalhas etc. Papai estava na janela e, ao saudá-lo, fez a graça:

- Vai levar a biblioteca para o banho? "Seu" Veiga ficou queimado durante muito tempo. 

Dona Odete - por alcunha "A Estante" - mãe dos meninos, sofria o desgosto de ter tantos filhos homens e não ter uma menina "para me fazer companhia" - como costumava dizer. Acreditava, inclusive, que aquilo era castigo de Deus, por causa da ideia do marido de botar aqueles nomes nos garotos. Por isso, fez uma promessa: se ainda tivesse uma menina, havia de chamá-la Maria. 

As esperanças já estavam quase perdidas. Epílogozinho já tinha oito anos, quando a vontade de Dona Odete tornou-se uma bela realidade, pesando cinco quilos e mamando uma enormidade. Os vizinhos comentaram que "Seu" Veiga não gostou, ainda que se conformasse, com a vinda de mais um herdeiro, só porque já lhe faltavam palavras relacionadas a livros para denominar a criança.

Só meses depois, na hora do batizado, o pai foi informado da antiga promessa. Ficou furioso com a mulher, esbravejou, bufou, mas - bom católico - acabou concordando em parte. E assim, em vez de receber somente o nome suave de Maria, a garotinha foi registrada, no livro da paróquia, após a cerimônia batismal, como Errata Maria da Veiga.
Estava cumprida a promessa de Dona Odete, estava de pé a mania de "Seu" Veiga.
(disponível em http://www.releituras.com/spontepreta_nome.asp acesso em 30/08/2012). 

A
No capítulo dos nomes difíceis têm acontecido coisas das mais pitorescas.
B
Ou é um camarada chamado Mimoso, que tem físico de mastodonte, ou é um sujeito fraquinho e insignificante chamado Hércules.
C
O mais velho chamou-se Prefácio da Veiga; o segundo, Prólogo.
D
Epílogozinho já tinha oito anos, quando a vontade de Dona Odete tornou-se uma bela realidade.
E
Só meses depois, na hora do batizado, o pai foi informado da antiga promessa.

Gabarito comentado

E
Eustáquio Matos Monitor com apoio de IA

Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a distinção entre termo de valor adverbial e termo de valor nominal. Na alternativa B, no trecho "Ou é um camarada chamado Mimoso, que tem físico de mastodonte, ou é um sujeito fraquinho e insignificante chamado Hércules.", não há expressão circunstancial de tempo, lugar, modo, causa etc.; predominam constituintes nominais e a oração adjetiva "que tem físico de mastodonte". Por isso, ela é a única alternativa sem adjunto adverbial.

Tema central: Adjunto adverbial
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque há adjunto adverbial em "No capítulo dos nomes difíceis". A locução preposicionada funciona com valor circunstancial de âmbito/lugar figurado e se liga ao predicado "têm acontecido". A confusão possível é olhar apenas para "dos nomes difíceis" dentro do sintagma nominal e ignorar que a locução inteira exerce função adverbial no período.
B
Certa
A alternativa B está correta porque o período é estruturado por elementos nominais, não por modificadores circunstanciais. "um camarada" e "um sujeito" são núcleos nominais na construção com verbo de ligação; "chamado Mimoso" e "chamado Hércules" caracterizam esses substantivos; "fraquinho e insignificante" também qualifica o sujeito; e "que tem físico de mastodonte" caracteriza "um camarada", sendo oração adjetiva. Não há termo com valor de circunstância ligado ao verbo.
C
Errada
Está errada porque há adjunto adverbial em "Assim". Esse advérbio tem valor adverbial de modo/encadeamento no texto e introduz a sequência do período, sem deixar de funcionar como termo circunstancial.
D
Errada
Está errada porque há adjunto adverbial em "já". Esse advérbio marca tempo em relação ao verbo "tinha". Mesmo que o candidato concentre a atenção na oração introduzida por "quando", o simples fato de haver "já" basta para descaracterizar a alternativa como resposta.
E
Errada
Está errada porque há duas locuções adverbiais de tempo: "Só meses depois" e "na hora do batizado". Ambas situam temporalmente o fato expresso em "o pai foi informado da antiga promessa". Logo, a alternativa contém adjunto adverbial de forma inequívoca.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre caracterização nominal e valor adverbial: em B, há termos descritivos e uma estrutura com preposição em "de mastodonte", mas nada disso exprime circunstância; já em A, C, D e E aparecem marcas adverbiais que podem passar despercebidas, inclusive advérbios simples como "Assim" e "já".
Dica para questões semelhantes
  • Primeiro procure marcas de circunstância ligadas ao verbo: tempo, lugar, modo, causa, meio, intensidade.
  • Não trate como adjunto adverbial um termo que apenas caracteriza substantivo; isso pertence ao campo nominal.
  • Advérbio de uma palavra também conta: "já" e "Assim" podem resolver a questão sozinhos.
  • Oração relativa que caracteriza um nome, como "que tem físico de mastodonte", não é oração adverbial.

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