Questão a4cdc840-5f
Prova:UFAC 2008
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos

A poesia de Carlos Drummond de Andrade se caracterizou desde o início por uma postura de deslocamento em relação ao mundo. No poema “José”, é inevitável a percepção de um esgotamento, de uma finitude de valores vivida ao extremo (E agora José?), porque nesse caso:

A
o sujeito lírico ordena uma série de resoluções que se não forem cumpridas pelo personagem fará com que ele perca irremediavelmente a sua condição humana.
B
o sujeito lírico imprime no personagem uma marca de universalidade que representará os limites do homem num mundo de forças inexoráveis.
C
o sujeito lírico permite uma distância entre o personagem e o mundo de tal maneira que eles não se contaminem.
D
o sujeito lírico conhece intimamente o personagem porque exagera nos seus defeitos e os sabe de antemão condenado por eles.
E
o sujeito lírico não mostra nenhuma consideração pelo personagem na sua representatividade exemplar do fracasso humano.

Gabarito comentado

A
Aníbal Monteiro Monitor com apoio de IA

Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o comando da questão, que afirma ser “inevitável a percepção de um esgotamento, de uma finitude de valores vivida ao extremo (E agora José?)”. Esse núcleo semântico orienta a leitura de José como figura exemplar e universalizada do limite humano diante de um mundo sem saída, o que invalida as alternativas baseadas em ordem, condenação moral, afastamento estanque ou desprezo.

Tema central: impasse existencial universal
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque atribui ao sujeito lírico uma sequência de ordens e resoluções, mas o elemento decisivo da questão é justamente o impasse expresso em “E agora José?”. A pergunta marca falta de saída, não prescrição de condutas. Também não há base para afirmar que o descumprimento dessas supostas resoluções faria o personagem perder sua condição humana.
B
Certa
A alternativa B está correta porque corresponde ao sentido de José como figura universal da crise humana. O enunciado destaca o esgotamento e a finitude de valores vividos ao extremo, e isso faz do personagem uma representação dos limites do homem diante de forças inexoráveis. Assim, “E agora José?” não apresenta solução, mas condensa o impasse existencial que universaliza o personagem.
C
Errada
Está errada porque transforma “deslocamento em relação ao mundo” em separação estanque, “de tal maneira que eles não se contaminem”. A base indica o contrário: o deslocamento é desencontro problemático com o mundo, e a crise de José decorre da relação com uma realidade sem resposta e com a falência de valores, não de uma imunidade entre personagem e mundo.
D
Errada
Está errada porque moraliza a crise do personagem ao falar em exagero de defeitos e condenação prévia por eles. O comando da questão orienta a leitura para “esgotamento” e “finitude de valores”, isto é, para uma crise existencial ampla, não para culpa individual fundada em defeitos morais. Essa interpretação acrescenta um juízo sem apoio textual na base.
E
Errada
Está errada porque alega que o sujeito lírico não mostra nenhuma consideração pelo personagem, mas a própria interpelação “E agora José?” evidencia focalização e envolvimento discursivo com ele. Além disso, a alternativa reduz José a “fracasso humano”, quando a base sustenta uma representatividade mais ampla: ele encarna um impasse humano universal, não apenas um caso depreciado de fracasso.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre interpelação e ordem: “E agora José?” pode parecer cobrança ou conselho, mas, no contexto indicado, exprime impasse existencial e universalização da condição humana, não injunção, condenação moral ou desprezo.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o comando destaca esgotamento, finitude e impasse, elimine alternativas que transformem isso em ordem, conselho prático ou punição moral.
  • Se o personagem aparece como figura emblemática, não o reduza a um indivíduo isolado; verifique se a alternativa preserva a dimensão universalizante.
  • Leia com cuidado termos como “deslocamento”: no contexto, eles podem indicar desencontro com o mundo, e não afastamento absoluto ou ausência de contato.

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