Questão 90968a95-6e
Prova:INSPER 2018
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos

No poema, o eu lírico retrata a infância pelo viés

Leia o poema para responder a questão.

Meninos carvoeiros

Os meninos carvoeiros
Passam a caminho da cidade.
– Eh, carvoero!
E vão tocando os animais com um relho enorme.

Os burros são magrinhos e velhos.
Cada um leva seis sacos de carvão de lenha.
A aniagem é toda remendada.
Os carvões caem. (Pela boca da noite vem uma velhinha que os recolhe,
[dobrando-se com um gemido.)

– Eh, carvoero!

Só mesmo estas crianças raquíticas
Vão bem com estes burrinhos descadeirados.
A madrugada ingênua parece feita para eles...
Pequenina, ingênua miséria!
Adoráveis carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis! –

Eh, carvoero!

Quando voltam, vêm mordendo num pão encarvoado,
Encarapitados nas alimárias
Apostando corrida,
Dançando, bamboleando nas cangalhas como espantalhos [desamparados!

(Manuel Bandeira, Estrela da vida inteira, 1993)

Vocabulário:
Relho: chicote
Aniagem: tecido grosseiro usado na confecção de sacos e fardos
Encarapitados: postos no alto
Alimárias: bestas de carga

A
da miséria e da ingênua visão do trabalho penoso, o que se pode comprovar, por exemplo, com as expressões “crianças raquíticas” e “carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis”.
B
da celebração da superação das condições aviltantes de vida, o que se pode comprovar, por exemplo, com as expressões “tocando os animais” e “madrugada ingênua”.
C
das recordações de experiências dolorosas, o que se pode comprovar, por exemplo, com as expressões “uma velhinha” e “ingênua miséria”.
D
de tênues ambiguidades, como sofrer e ser amigo, o que se pode comprovar, por exemplo, com as expressões “com um relho enorme” e “Dançando, bamboleando”.
E
do bom humor, ainda que tematizando a pobreza, o que se pode comprovar, por exemplo, com as expressões “burrinhos descadeirados” e “espantalhos desamparados”.

Gabarito comentado

E
Erico Barros Monitor do Qconcursos

Tema central: Interpretação de texto poético. O objetivo aqui é analisar, de forma textual e semântica, como o eu lírico constrói o retrato da infância no poema de Manuel Bandeira, destacando vocabulário, imagens e sentimentos.

Justificativa da alternativa correta (A):
A alternativa A está correta porque apresenta o viés da miséria associada à ingenuidade infantil perante o trabalho penoso. Isso pode ser comprovado por expressões como “crianças raquíticas” (indicando fragilidade e más condições de vida) e “carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis” (sugerindo que o sofrimento é suavizado pelo modo ingênuo com que as crianças o encaram). Segundo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa), ao interpretar textos literários, o contexto e o uso conotativo dos vocábulos são essenciais para captar o sentimento predominante.

Como resolver: Identifique as palavras-chave que evocam miséria e ingenuidade. Observe o contraste entre a:

  • descrição dura da realidade (crianças fragilizadas, animais velhos, roupas remendadas)
  • e a forma quase lúdica como as crianças são retratadas trabalhando (“como se brincásseis”).
Esse olhar duplo caracteriza a perspectiva do eu lírico.

Análise das alternativas incorretas:

B - Erro: Não há celebração da superação, mas sim um retrato da perpetuação da pobreza. “Madrugada ingênua” não é sinal de vitória, mas marca o ambiente em que se desenrola a rotina penosa.

C - Erro: O poema não é uma recordação pessoal, e sim uma observação sensível e atual daquela realidade, como demonstram os verbos presentes e a descrição impessoal.

D - Erro: Não há verdadeira ambiguidade entre sofrer e ser amigo. “Dançando, bamboleando” demonstra apenas a precariedade do transporte e a aparência das crianças, e não sentimentos dúbios.

E - Erro: O tom do poema é de melancolia e compaixão; não de bom humor, apesar do lirismo com que a pobreza é registrada.

Dicas para provas: Atenção às palavras com forte carga semântica! Em poesia, diminutivos, ironias e contradições muitas vezes suavizam ou intensificam o tema, mas aqui o recorte principal é a fragilidade social (miséria) e a perspectiva infantil (ingenuidade).

Referência: CUNHA & CINTRA, Nova Gramática do Português Contemporâneo. BECHARA, Moderna Gramática Portuguesa.

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