Questão 77ffd721-af
Prova:UFU-MG 2010
Disciplina:Literatura
Assunto:Modernismo: Tendências contemporâneas, Escolas Literárias
Com base nos fragmentos abaixo, extraídos do conto Paraísos Artificiais, assinale a alternativa correta.
Você está sentado numa cadeira. Você está sentado nesta cadeira já faz bastante tempo. Você
fica sentado nesta cadeira durante muito tempo, diariamente. Você não conseguiria ficar parado
em pé por tanto tempo; logo você ficaria cansado, com dor nas pernas. Também não conseguiria
permanecer tanto tempo assim deitado na cama, de cara para o teto; essa posição se tornaria
cada vez mais incômoda com o passar do tempo, até fazê-lo virar-se para um lado [...] mas
depois de alguns minutos de bem-estar, seu corpo seria dominado pouco a pouco por uma
sensação de desconforto que gradualmente se transformaria numa idéia, de início vaga, depois
mais nítida, mais e mais, até cristalizar-se nas palavras: “Esta posição é a menos confortável
que há”, e essas palavras em pouco tempo levariam a estas: “A posição mais confortável de
todas seria ficar virado para a direita”. A nova sensação, porém, não perduraria por muito tempo;
logo você seria obrigado a trocar de posição mais uma vez, e todo o ciclo recomeçaria.
[...]
Mas há uma maneira simples de alterar essa situação – quer dizer, não alterá-la objetivamente,
o que seria impossível, e sim modificar o modo como você a vivencia (e como você só sabe das
situações o que vivencia delas, para todos os fins práticos modificar sua percepção de uma
situação é a mesma coisa que modificar a situação em si): basta sentar-se na cadeira, pegar
um lápis e uma folha de papel, e começar a escrever.
Com base nos fragmentos abaixo, extraídos do conto Paraísos Artificiais, assinale a alternativa correta.
Você está sentado numa cadeira. Você está sentado nesta cadeira já faz bastante tempo. Você
fica sentado nesta cadeira durante muito tempo, diariamente. Você não conseguiria ficar parado
em pé por tanto tempo; logo você ficaria cansado, com dor nas pernas. Também não conseguiria
permanecer tanto tempo assim deitado na cama, de cara para o teto; essa posição se tornaria
cada vez mais incômoda com o passar do tempo, até fazê-lo virar-se para um lado [...] mas
depois de alguns minutos de bem-estar, seu corpo seria dominado pouco a pouco por uma
sensação de desconforto que gradualmente se transformaria numa idéia, de início vaga, depois
mais nítida, mais e mais, até cristalizar-se nas palavras: “Esta posição é a menos confortável
que há”, e essas palavras em pouco tempo levariam a estas: “A posição mais confortável de
todas seria ficar virado para a direita”. A nova sensação, porém, não perduraria por muito tempo;
logo você seria obrigado a trocar de posição mais uma vez, e todo o ciclo recomeçaria.
[...]
Mas há uma maneira simples de alterar essa situação – quer dizer, não alterá-la objetivamente,
o que seria impossível, e sim modificar o modo como você a vivencia (e como você só sabe das
situações o que vivencia delas, para todos os fins práticos modificar sua percepção de uma
situação é a mesma coisa que modificar a situação em si): basta sentar-se na cadeira, pegar
um lápis e uma folha de papel, e começar a escrever.
A
Mais que a descrição de inúmeras e prováveis sensações, o conto encerra uma poética da escrita como exercício
ficcional.
B
O título do conto Paraísos artificiais remete ao livro do escritor francês Charles Baudelaire, sugerindo, portanto, um
tom decadentista/simbolista.
C
O incômodo da personagem deste conto se reflete nos outros contos do livro, em que a fragmentação acentua o
isolamento de cada uma das narrativas.
D
O isolamento da personagem tem por objetivo distanciar o leitor e demonstrar que esta é uma das características do
homem contemporâneo.
Gabarito comentado
A
Alzira Fernandes MentorMonitor com apoio de IA
Gabarito: A
Fundamento decisivo: O critério decisivo é a passagem da descrição do desconforto para a reflexão sobre o ato de escrever, sobretudo em “modificar sua percepção de uma situação é a mesma coisa que modificar a situação em si” e “pegar um lápis e uma folha de papel, e começar a escrever”; isso evidencia a escrita como operação que reelabora a experiência vivida e sustenta a correção da alternativa A.
Tema central: poética da escrita
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque o fragmento não se limita à descrição de sensações corporais e mentais. Ele encaminha essa experiência para uma reflexão sobre a escrita como meio de transformar a vivência da situação. Ao afirmar que modificar a percepção equivale, na prática, a modificar a situação em si, e ao propor “começar a escrever” como resposta, o texto explicita a escrita como elaboração verbal da experiência, configurando uma poética da escrita como exercício ficcional.
B
Errada
A alternativa depende de associação externa entre o título e Baudelaire e conclui daí um “tom decadentista/simbolista” sem apoio suficiente no fragmento. Pela base, uma eventual remissão intertextual no título, isoladamente, não basta para classificar o conto ou seu tom. O trecho sustenta leitura metalinguística da escrita, não filiação de escola literária.
C
Errada
A alternativa faz generalização indevida do fragmento para a totalidade da obra. Ela menciona os “outros contos do livro” e a “fragmentação” do conjunto, mas a questão oferece apenas fragmentos de um conto. Não há base textual suficiente para afirmar repetição temática nos demais contos nem organização do livro por narrativas isoladas.
D
Errada
A alternativa atribui ao texto um objetivo e uma tese que o fragmento não comprova. Não há marcas textuais de que o isolamento da personagem sirva para distanciar o leitor, nem formulação explícita de que isso demonstre uma característica do homem contemporâneo. Trata-se de projeção de intenção autoral e de generalização sociológica sem sustentação no enunciado.
Pegadinha da questão
A questão tenta induzir a leitura do trecho apenas como enumeração introspectiva de sensações e a ignorar a passagem em que a escrita aparece como forma de transformar a experiência; também provoca extrapolações sobre escola literária, o livro inteiro e intenção autoral sem base textual suficiente.
Dica para questões semelhantes
- Identifique se o fragmento passa a falar do próprio ato de escrever; essa virada costuma ser o núcleo decisivo da interpretação.
- Não classifique escola literária nem tom de obra só por título ou possível alusão externa sem confirmação nos traços do trecho.
- Separe o que o fragmento prova do que exigiria conhecimento do livro inteiro ou da intenção do autor.
- Quando o texto relaciona percepção, linguagem e escrita, priorize leitura metalinguística antes de conclusões sociológicas amplas.






