A leitura do poema permite concluir que o verão carioca
Verão carioca 73
O carro do sol passeia rodas de incêndio
sobre os corpos e as mentes, fulminando-os.
Restam, sob o massacre, esquírolas1
de consciência,
a implorar, sem esperança, um caneco de sombra.
As árvores decotadas, alamedas sem árvores.
O ar é neutro, fixo, e recusa passagem
às viaturas da brisa. O zinir de besouros buzinas
ressoa no interior da célula ferida.
Sobe do negro chão meloso espedaçado
o súlfur2
dos avernos3
em pescoções de fogo.
A vida, esse lagarto invisível na loca4
,
ou essa rocha ardendo onde a verdura ria?
O mar abre-se em leque à visita de uns milhares,
mas, curvados ao peso dessa carga de chamas,
em mil formas de esforço e pobreza e rotina,
milhões
curtem a maldição do esplêndido verão.
(Carlos Drummond de Andrade. As impurezas do branco, 2012)
1esquírolas: lascas, pedacinhos
2súlfur: enxofre
3avernos: infernos
4loca: gruta pequena, local sob algo
O carro do sol passeia rodas de incêndio
sobre os corpos e as mentes, fulminando-os.
Restam, sob o massacre, esquírolas1 de consciência,
a implorar, sem esperança, um caneco de sombra.
As árvores decotadas, alamedas sem árvores.
O ar é neutro, fixo, e recusa passagem
às viaturas da brisa. O zinir de besouros buzinas
ressoa no interior da célula ferida.
Sobe do negro chão meloso espedaçado
o súlfur2 dos avernos3 em pescoções de fogo.
A vida, esse lagarto invisível na loca4 ,
ou essa rocha ardendo onde a verdura ria?
O mar abre-se em leque à visita de uns milhares,
mas, curvados ao peso dessa carga de chamas,
em mil formas de esforço e pobreza e rotina,
milhões curtem a maldição do esplêndido verão.
(Carlos Drummond de Andrade. As impurezas do branco, 2012)
1esquírolas: lascas, pedacinhos
2súlfur: enxofre
3avernos: infernos
4loca: gruta pequena, local sob algo
Gabarito comentado
Tema central: Interpretação de texto poético com foco na análise do sentido global, identificação de figuras de linguagem (metáfora, personificação) e compreensão de ideias explícitas e implícitas.
Justificativa da alternativa correta – Letra A:
O poema “Verão carioca 73” demonstra, com intensa expressividade, o paradoxo do verão no Rio: enquanto o sol sugere alegria e beleza, transforma-se em tormento para a maioria das pessoas. Expressões como “carro do sol passeia rodas de incêndio”, “massacre”, “milhões curtem a maldição do esplêndido verão” evidenciam sofrimento, calor exaustivo e exclusão social, contrastando com o suposto esplendor do verão.
A alternativa A capta perfeitamente esse contraste: “assume um caráter paradoxal para muitos cidadãos, que não conseguem usufruir plenamente o que ele tem de bom”. Deste modo, demonstra domínio da interpretação contextual e sensível das metáforas propostas.
Análise das alternativas incorretas:
B) Fala em “recusa ao trabalho”, mas o texto não menciona essa resistência. Há exaustão, mas não abandono ou recusa, o que foge do explícito e implícito do poema.
C) Exagera na total negatividade: afirma que nada pode encantar e que há apenas desolação, porém o poema trabalha exatamente a tensão entre o esplendor e a dificuldade, isto é, não é absolutamente negativo.
D) Diz ser uma “maldição insuperável”, sugerindo unicidade e totalidade. Entretanto, o texto faz referência ao paradoxo; embora o verão seja magnífico em certos aspectos, não se trata de maldição sem solução.
E) Ao afirmar que o verão é fonte de alegria e energia, contradiz todo o tom crítico e opressivo apresentado pelo eu lírico. O texto evidencia sofrimento — não vigor — causado pelo calor.
Estratégia para questões semelhantes:
Repare sempre nas figuras de linguagem, nos termos de oposição (ex: “mas”), e busque o sentido global do texto, sem se apegar apenas a um verso fora de contexto.
Como bem dizem Bechara e Cereja, interpretar é relacionar elementos explícitos e inferir conteúdos implícitos. Assim, a alternativa A é a única que traduz o real paradoxo construído por Drummond.
Gostou do comentário? Deixe sua avaliação aqui embaixo!






