Questão 6e9a180b-34
Prova:PUC-GO 2015
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos

Sabemos que em Literatura nem tudo o que parece é, de fato. As palavras possuem, no universo literário, pesos e medidas imensuráveis. Assim, a história das irmãs envolvidas na trama narrada por uma delas, no romance Mesa dos inocentes, de Adelice da Silveira Barros, de que faz parte o Texto 4, nos leva a concluir que (marque a alternativa correta):

TEXTO 4
        Lua de mel! Lua de fel. Bebi meu cálice de amargura, cumprindo cada uma das estações da dor. Fui para a cama com um rapaz decente, um amigo fiel, porém insípido, insosso, desenxabido como a sopa que agora engulo todas as noites. Enquanto isso, perto dali, o homem pelo qual meu corpo inteiro latejava, que eu queria e que me desejava, entrava debaixo dos lençóis de outra mulher, minha irmã. Amor, paixão, revolta. Ódio. Com que fúria maldisse meu pai, minha mãe. Ana Alice, minha irmã, tão apaixonada pelo Vítor quanto eu, e com a vantagem daquele odioso arzinho de fragilidade, o trunfo que acabou lhe garantindo a vitória. Na batalha da força contra a fraqueza, a última saiu vitoriosa. Quem diria! Com tão escassa munição, a sonsa Ana Alice venceu a peleja. 
        O castigo tem pressa, não se faz esperar. Aqui se faz, aqui se paga. O preço foi alto; durante anos, minha irmã permaneceu chafurdada no inferno do ciúme. Chamuscou na labareda da inveja a pureza de suas lindas asas de anjo. Encontrou, um dia, a felicidade? Não encontrou? Uma coisa é certa: ninguém pode dizer que Ana Alice tenha sido rejeitada. E, ao seu modo, talvez tenha sido feliz sim, não sei. No final, acomodou-se nos braços de um amor maduro, se morno ou não, quem há de saber? Morreu tranquila ao lado do marido. Naqueles tempos em que a palavra dada tinha peso de assinatura, ninguém ponderou a força da paixão que unia o Vítor a mim. Não avaliaram a ameaça que representava nossa cumplicidade, o gosto pelas mesmas coisas, um amor jovem demais desabrochado na clandestinidade. No início de nossos casamentos, resistimos. Permanecemos aparentemente acomodados em nossos compromissos arranjados. Antes de tudo, vinha a arraigada convicção de que era necessário manter as aparências. 
(BARROS, Adelice da Silveira.  Mesa  dos inocentes. Goiânia: Kelps, 2010. p. 19.)

A
A oposição contida na expressão “Lua de mel! Lua de fel” dá o tom da temática central da narrativa dessa autora, que nos leva a refletir sobre a dura realidade: todo acontecimento positivo já anuncia outro, fatalmente negativo, e não há recompensa sem esforços.
B
A oposição contida na expressão “Lua de mel! Lua de fel” não corresponde ao tom da temática central da narrativa, uma vez que, no fundo, os dois dizeres nela contidos nos levam à compreensão de que a realidade é sempre muito surpreendente e, em muitos casos, como acontece no fragmento em questão, mel e fel se complementam.
C
trata-se de uma história aparentemente simples, mas que, melhor observada, revela temas que extrapolam o drama familiar que serve de pano de fundo da narrativa. O tema central não é o desencontro amoroso ou a inveja, mas a falta de diálogo que se instalou, em nome de uma tradição familiar que, em última análise, tem muito mais destruído que reforçado a família como célula fundamental da sociedade.
D
Trata-se de uma história realmente simples que, mesmo observada por vários ângulos, não revela temas que extrapolem os limites dos dramas familiares cotidianos; afinal, apesar de a história que serve de pano de fundo para a narrativa em questão suscitar outros temas, nenhum deles vai além de uma trama que volta sempre ao tema do desencontro amoroso carregado de inveja e temperado por um discreto suspense.

Gabarito comentado

R
Renata LimaMonitor do Qconcursos

TEMA CENTRAL DA QUESTÃO: Interpretação de Texto, com destaque para análise de tema central/subjacente e identificação de figuras de linguagem (antítese).

Para resolver a questão, é essencial compreender a figura de linguagem antítese presente em “Lua de mel! Lua de fel”, expressando a oposição entre alegria e amargura. Segundo a norma-padrão e gramáticas como Bechara e Cunha & Cintra, a antítese evidencia sensações ou ideias opostas, não apenas por estética, mas para aprofundar sentidos e reflexões no texto literário.

Justificativa da Alternativa Correta (C):
Esta alternativa afirma que a trama, embora aparentemente simples e situada no âmbito familiar, revela temas amplos e universais, como a falta de diálogo e as tensões de tradições familiares que prejudicam mais do que protegem. Ao interpretar profundamente, nota-se que o texto vai além de uma mera rivalidade amorosa: discute-se o silêncio, a repressão de sentimentos e a manutenção de aparências (“era necessário manter as aparências”), tópicos atestados pela análise semântica.

Segundo a estratégia de interpretação recomendada por Celso Cunha & Lindley Cintra, é fundamental não se fixar apenas no enredo explícito, mas decifrar as ideias implícitas, que direcionam à reconstrução dos valores familiares e à crítica social ali presente.

Análise das Alternativas Incorretas:

A) Erro: Generaliza negativamente, sugerindo um ciclo fatalista entre felicidade e desgraça, quando o texto vai além dessa dicotomia.

B) Erro: Afirma que mel e fel se “complementam”, mas a figura é de oposição, não de complementaridade. A antítese busca destacar e não unir sentidos opostos.

D) Erro: Reduz a temática apenas aos dramas familiares, ignorando discussões implícitas mais profundas e críticas ao silêncio e aos valores tradicionais.

DICAS para provas:

  • Busque elementos que indiquem críticas ou reflexões além do óbvio.
  • Atente-se às figuras de linguagem e seu efeito na mensagem do texto.
  • Desconfie de alternativas que restringem muito a interpretação ou generalizam em excesso.

Conclusão: A alternativa C está correta porque reconhece e fundamenta o alcance temático mais amplo do texto, indo além do drama familiar e abordando questões de diálogo e tradição.

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