No decorrer do Texto 4, a narradora faz uso de expressões
populares que, em geral, traduzem experiências
vividas e constituem marcas da identidade de determinada
comunidade linguística. Assinale a alternativa que
indica corretamente a construção do texto que expressa
as consequências dos atos do ser humano:
TEXTO 4 Lua de mel! Lua de fel. Bebi meu cálice de amargura,
cumprindo cada uma das estações da dor. Fui
para a cama com um rapaz decente, um amigo fiel,
porém insípido, insosso, desenxabido como a sopa
que agora engulo todas as noites. Enquanto isso, perto
dali, o homem pelo qual meu corpo inteiro latejava,
que eu queria e que me desejava, entrava debaixo dos
lençóis de outra mulher, minha irmã. Amor, paixão,
revolta. Ódio. Com que fúria maldisse meu pai, minha
mãe. Ana Alice, minha irmã, tão apaixonada pelo
Vítor quanto eu, e com a vantagem daquele odioso arzinho
de fragilidade, o trunfo que acabou lhe garantindo
a vitória. Na batalha da força contra a fraqueza,
a última saiu vitoriosa. Quem diria! Com tão escassa
munição, a sonsa Ana Alice venceu a peleja. O castigo tem pressa, não se faz esperar. Aqui
se faz, aqui se paga. O preço foi alto; durante anos,
minha irmã permaneceu chafurdada no inferno do
ciúme. Chamuscou na labareda da inveja a pureza de
suas lindas asas de anjo. Encontrou, um dia, a felicidade?
Não encontrou? Uma coisa é certa: ninguém
pode dizer que Ana Alice tenha sido rejeitada. E, ao
seu modo, talvez tenha sido feliz sim, não sei. No final,
acomodou-se nos braços de um amor maduro, se
morno ou não, quem há de saber? Morreu tranquila
ao lado do marido. Naqueles tempos em que a palavra
dada tinha peso de assinatura, ninguém ponderou
a força da paixão que unia o Vítor a mim. Não
avaliaram a ameaça que representava nossa cumplicidade,
o gosto pelas mesmas coisas, um amor jovem
demais desabrochado na clandestinidade. No início
de nossos casamentos, resistimos. Permanecemos
aparentemente acomodados em nossos compromissos
arranjados. Antes de tudo, vinha a arraigada convicção
de que era necessário manter as aparências. (BARROS, Adelice da Silveira. Mesa dos inocentes.
Goiânia: Kelps, 2010. p. 19.)
Gabarito comentado
Tema central da questão: Semântica e Interpretação de Textos, com foco na identificação do significado de expressões populares e a relação ato-consequência em locuções idiomáticas.
Expressões idiomáticas são construções da língua cujo sentido não se deduz pela soma das palavras, mas sim pelo uso consagrado culturalmente (Bechara, Moderna Gramática Portuguesa). Muitas carregam temas universais, como as consequências das escolhas humanas.
Justificativa da alternativa correta:
A alternativa B) “Aqui se faz, aqui se paga.” é a correta. Trata-se de um provérbio que expressa explicitamente que cada ação gera uma consequência, reforçando a ideia de justiça implacável: toda atitude traz retorno equivalente, seja positivo ou negativo. No contexto do texto, a autora aborda o sofrimento e a "punição" enfrentada pela irmã ao longo dos anos, conectando exatamente com o significado dessa expressão.
Segundo Cunha & Cintra, provérbios com sentido axiológico (“Aqui se faz, aqui se paga”) são marcantes na cultura por ensinarem através da experiência coletiva. Esta expressão corresponde, pois, diretamente à consequência dos atos humanos exigida pela questão.
Análise das alternativas incorretas:
A) “Lua de mel! Lua de fel!” – Traz antítese (contraste felicidade x desilusão), mas não destaca consequência de ações, apenas mudança de estados.
C) “A palavra dada tinha peso de assinatura” – Ressalta a importância do compromisso e da honra, sem indicar diretamente relação de ato e consequência.
D) “Bebi meu cálice de amargura” – Uso metafórico para sofrimento, focando no sentimento pessoal, não no efeito de ações passadas.
Estratégias para questões semelhantes:
Destaque sempre os termos de causa e consequência nas alternativas. Expres-sões como “paga”, “colhe”, “recebe”, “retorna” costumam associar ações a resultados. Atenção a provérbios; costumam ser síntese de experiência e lição moral.
Referência: Cunha & Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo; Bechara, Moderna Gramática Portuguesa.
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