Assinale a alternativa que se aproxima corretamente
do conteúdo semântico do seguinte trecho retirado do
Texto 3: “observar o outro espécime que nada tinha de
diferente e ao mesmo tempo tinha tudo de diferente”:
TEXTO 3
O outro
Ele me olhou como se estivesse descobrindo o mundo. Me olhou e reolhou em fração de segundo. Só vi isso porque estava olhando-o na mesma sintonia. A singularização do olhar. Tentei disfarçar virando o pescoço para a direita e para a esquerda, como se estivesse fazendo um exercício, e numa dessas viradas olhei rapidamente para ele no volante. Ele me olhava e volveu rapidamente os olhos, fingindo estar tirando um cisco da camisa. Era um ser de meia idade, os cabelos com alguns fios grisalhos, postura de gente séria, camisa branca, um cidadão comum que jamais flertaria com outra pessoa no trânsito. E assim, enquanto o semáforo estava no vermelho para nós, ficou esse jogo de olhares que não queriam se fixar, mas observar o outro espécime que nada tinha de diferente e ao mesmo tempo tinha tudo de diferente. Ele era o outro e isso era tudo. É como se, na igualdade de milhares de humanos, de repente, o ser se redescobrisse num outro espécime. Quando o semáforo ficou verde, nós nos olhamos e acionamos os motores.
(GONÇALVES, Aguinaldo. Das estampas. São Paulo: Nankin, 2013. p. 130.)
O outro
Ele me olhou como se estivesse descobrindo o mundo. Me olhou e reolhou em fração de segundo. Só vi isso porque estava olhando-o na mesma sintonia. A singularização do olhar. Tentei disfarçar virando o pescoço para a direita e para a esquerda, como se estivesse fazendo um exercício, e numa dessas viradas olhei rapidamente para ele no volante. Ele me olhava e volveu rapidamente os olhos, fingindo estar tirando um cisco da camisa. Era um ser de meia idade, os cabelos com alguns fios grisalhos, postura de gente séria, camisa branca, um cidadão comum que jamais flertaria com outra pessoa no trânsito. E assim, enquanto o semáforo estava no vermelho para nós, ficou esse jogo de olhares que não queriam se fixar, mas observar o outro espécime que nada tinha de diferente e ao mesmo tempo tinha tudo de diferente. Ele era o outro e isso era tudo. É como se, na igualdade de milhares de humanos, de repente, o ser se redescobrisse num outro espécime. Quando o semáforo ficou verde, nós nos olhamos e acionamos os motores.
(GONÇALVES, Aguinaldo. Das estampas. São Paulo: Nankin, 2013. p. 130.)
Gabarito comentado
Comentário do Gabarito – Interpretação de Texto & Semântica
Tema central da questão: Interpretação de texto, mais especificamente a compreensão semântica e a identificação de figuras de linguagem (antítese).
O trecho destacado – “observar o outro espécime que nada tinha de diferente e ao mesmo tempo tinha tudo de diferente” – explora como a percepção do olhar torna especial aquilo que parece comum. Segundo a norma-padrão e as gramáticas de referência, como Cunha & Cintra, antítese é a aproximação de ideias opostas para dar destaque ao contraste.
Justificativa da alternativa correta (C):
“A maneira de olhar torna diferentes seres e objetos tidos como comuns.”
Essa alternativa resume perfeitamente o sentido do trecho. O texto mostra que, ao se deparar com o outro no trânsito, o simples ato de observar transforma o que seria apenas mais um indivíduo em algo singular. Seguindo a dica gramatical, o olhar subjetivo confere unicidade ao que parece rotineiro.
Por que as demais alternativas estão erradas?
- A) Trata de encontrar um par romântico no trânsito – Falso. O texto não aborda romance, mas sim percepção e alteridade.
- B) Defende a paixão à primeira vista – Errado. Não há referência a paixão
- D) Supõe identificar caráter pelo olhar – Equívoco. O texto discorre sobre a diferença na percepção, não sobre caracterização moral.
Como resolver questões assim?
Fique atento a:
- Palavras de oposição e contraste (“nada tinha de diferente e ao mesmo tempo tudo de diferente”) – indícios claros de figuras como antítese.
- Pequenas inferências: nem tudo o que parece óbvio é o foco central. Questões assim costumam afastar o aluno da resposta correta usando alternativas “plausíveis”, mas deslocadas do tema.
- Evite generalizações e extrapolações que não estejam textualmente sustentadas.
Regra principal: Figure-se a antítese como espelhamento de sentidos opostos para destacar contrastes na percepção, e não para sugerir romance, paixão ou julgamento moral.
Autor de referência: Cunha & Cintra (2007), sobre antítese e oposição semântica.
Dica: Em provas, leia atentamente o núcleo da ideia do trecho solicitado e retome as palavras-chave para evitar distrações com alternativas tentadoras, porém, fora do foco.
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