Questão 6e3fd4bd-34
Prova:PUC-GO 2015
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos

TEXTO 2 

    I 
Corre em mim 
(devastado) 
um rio de revolta 

cicio. 
Por nada deste mundo 
há de saber-se afogado, 
senão por sua sede 
e seu desvio! 

   II 
Tudo que edifico 
na origem milenar da espera 
é poder 
do que não pode 
e se revela 

ad mensuram. 

                     (VIEIRA, Delermando. Os tambores da tempestade. Goiânia: Poligráfica, 2010. p. 23-24.)



     A fala da lírica de Delermando Vieira (Texto 2), na sua maneira enigmática e obscura, exprime as perspectivas da lírica contemporânea, que não pode ser colocada em dúvida quanto à sua significação. Nesse sentido, sua obra poética tem como prioridade a polissemia da linguagem com seus mistérios e matizes, mesmo que esse poeta seja acusado muitas vezes de enigmático. No entanto, a poesia é mesmo um enigma e um ouriço não muito acessível. Considerando a poesia de Delermando Vieira e tendo como exemplo o texto selecionado, marque a alternativa verdadeira:

A
Como poeta contemporâneo, Vieira cria um eu lírico que se vê projetado no mundo interior e mostra que pode traduzir perfeitamente os seus sentimentos.
B
A poesia de Delermando Vieira exige atenção, conhecimento e sensibilidade. Seus textos são densos e possuem lâminas que sangram uma existência dolorida e conduzem o leitor a um mundo de verdades e vivências.
C
Na poesia contemporânea, o sujeito explicitado como “eu" se refere a uma pessoa particular.
D
Não existe uma distinção entre o poeta do texto e o poeta real, isto é, entre aquele que fala no poema e o homem comum que escreve. O “eu" poético filosofa sobre a morte como o fim absoluto de qualquer coisa de positivo: um ser humano, um animal, uma planta, uma amizade, uma aliança, a paz, uma época.

Gabarito comentado

C
Cláudia Nogueira Monitor do Qconcursos

Tema central: Interpretação de texto poético contemporâneo. Essa questão cobra habilidades de análise, compreensão da função poética e do papel do eu lírico na poesia moderna, que costuma ser densa, ambígua e aberta a múltiplas interpretações.

Justificativa da alternativa correta (B):

A alternativa B afirma: "A poesia de Delermando Vieira exige atenção, conhecimento e sensibilidade. Seus textos são densos e possuem lâminas que sangram uma existência dolorida e conduzem o leitor a um mundo de verdades e vivências."

Essa alternativa retrata a essência da poesia contemporânea: linguagem cheia de camadas, uso expressivo de símbolos e uma experiência subjetiva para o leitor, exigindo sua participação ativa na decodificação do texto. Conforme a norma-padrão e os estudiosos da área, como Evanildo Bechara, a função poética centra-se na mensagem, destacando forma, sentidos plurais e impacto estético (Moderna Gramática Portuguesa).

No trecho “[...] edifico na origem milenar da espera [...] poder do que não pode [...]”, percebe-se a opacidade e a profundidade, reforçando a densidade e o convite à reflexão subjetiva.

Análise das alternativas incorretas:

A) Ao afirmar que o “eu lírico traduz perfeitamente seus sentimentos”, ignora a principal característica da poesia contemporânea: a impossibilidade de transposição perfeita do sentimento para a linguagem. A polissemia e os enigmas impedem a “perfeição” proposta.

C) Sugere que o “eu” é uma pessoa particular. Porém, eu lírico é conceitualmente um sujeito fictício; não deve ser confundido com o autor real ou com uma individualidade concreta (Bechara, Cunha & Cintra).

D) Ela mistura o poeta real ao sujeito poético e afirma que há uma fusão entre ambos. Isso fere o conceito de eu lírico, que é sempre uma persona criada, não necessariamente reflexo direto do autor. Além disso, estende o tema à morte, que nem está presente de maneira explícita no texto.

Estratégia para provas: Desconfie de alternativas que simplificam a poesia contemporânea ou confundem autor e eu lírico. Busque pistas no texto para conferir intensidade, subjetividade e abertura de interpretação. Atente-se ao termo "perfeitamente" e à ideia de identidade total entre autor e eu lírico — são pegadinhas comuns.

Resumo: A alternativa B é correta porque define o texto e a lírica contemporânea pelo viés da ambiguidade, densidade e necessidade de leitura atenta (função poética, polissemia e subjetividade).

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