Questão 4845a473-e4
Prova:USP 2012
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos
Considerada no contexto histórico a que se refere Til, a desenvoltura com que os escravos, no excerto, se entregam à dança é representativa do fato de que
Considerada no contexto histórico a que se refere Til, a desenvoltura com que os escravos, no excerto, se entregam à dança é representativa do fato de que
V - O samba
À direita do terreiro, adumbra-se* na escuridão um maciço de construções, ao qual às vezes recortam no azul do céu os trêmulos vislumbres das labaredas fustigadas pelo vento.
(...)
É aí o quartel ou quadrado da fazenda, nome que tem um grande pátio cercado de senzalas, às vezes com alpendrada corrida em volta, e um ou dois portões que o fecham como praça d’armas.
Em torno da fogueira, já esbarrondada pelo chão, que ela cobriu de brasido e cinzas, dançam os pretos o samba com um frenesi que toca o delírio. Não se descreve, nem se imagina esse desesperado saracoteio, no qual todo o corpo estremece, pula, sacode, gira, bamboleia, como se quisesse desgrudar- se.
Tudo salta, até os crioulinhos que esperneiam no cangote das mães, ou se enrolam nas saias das aparigas. Os mais taludos viram cambalhotas e pincham à guisa de sapos em roda do terreiro. Um desses corta jaca no espinhaço do pai, negro fornido, que não sabendo mais como desconjuntar-se, atirou consigo ao chão e começou de rabanar como um peixe em seco. (...)
José de Alencar, Til.
(*) “adumbra-se” = delineia-se, esboça-se.
V - O samba
À direita do terreiro, adumbra-se* na escuridão um maciço de construções, ao qual às vezes recortam no azul do céu os trêmulos vislumbres das labaredas fustigadas pelo vento.
(...)
É aí o quartel ou quadrado da fazenda, nome que tem um grande pátio cercado de senzalas, às vezes com alpendrada corrida em volta, e um ou dois portões que o fecham como praça d’armas.
Em torno da fogueira, já esbarrondada pelo chão, que ela cobriu de brasido e cinzas, dançam os pretos o samba com um frenesi que toca o delírio. Não se descreve, nem se imagina esse desesperado saracoteio, no qual todo o corpo estremece, pula, sacode, gira, bamboleia, como se quisesse desgrudar- se.
Tudo salta, até os crioulinhos que esperneiam no cangote das mães, ou se enrolam nas saias das aparigas. Os mais taludos viram cambalhotas e pincham à guisa de sapos em roda do terreiro. Um desses corta jaca no espinhaço do pai, negro fornido, que não sabendo mais como desconjuntar-se, atirou consigo ao chão e começou de rabanar como um peixe em seco. (...)
José de Alencar, Til.
(*) “adumbra-se” = delineia-se, esboça-se.
À direita do terreiro, adumbra-se* na escuridão um maciço de construções, ao qual às vezes recortam no azul do céu os trêmulos vislumbres das labaredas fustigadas pelo vento.
(...)
É aí o quartel ou quadrado da fazenda, nome que tem um grande pátio cercado de senzalas, às vezes com alpendrada corrida em volta, e um ou dois portões que o fecham como praça d’armas.
Em torno da fogueira, já esbarrondada pelo chão, que ela cobriu de brasido e cinzas, dançam os pretos o samba com um frenesi que toca o delírio. Não se descreve, nem se imagina esse desesperado saracoteio, no qual todo o corpo estremece, pula, sacode, gira, bamboleia, como se quisesse desgrudar- se.
Tudo salta, até os crioulinhos que esperneiam no cangote das mães, ou se enrolam nas saias das aparigas. Os mais taludos viram cambalhotas e pincham à guisa de sapos em roda do terreiro. Um desses corta jaca no espinhaço do pai, negro fornido, que não sabendo mais como desconjuntar-se, atirou consigo ao chão e começou de rabanar como um peixe em seco. (...)
José de Alencar, Til.
(*) “adumbra-se” = delineia-se, esboça-se.
A
a escravidão, no Brasil, tal como ocorreu na América do Norte e no Caribe, foi branda.
B
se permitia a eles, em ocasiões especiais e sob vigilância, que festejassem a seu modo.
C
teve início nas fazendas de café o sincretismo das culturas negra e branca, que viria a caracterizar a cultura brasileira.
D
o narrador entendia que o samba de terreiro era, em realidade, um ritual umbandista disfarçado.
E
foi a generalização, entre eles, do alcoolismo, que tornou antieconômica a exploração da mão de obra escrava nos cafezais paulistas.
Gabarito comentado
M
Marina OliveiraMonitor com apoio de IA
Gabarito: B
Fundamento decisivo: A inferência correta decorre da combinação entre o espaço narrativo delimitado e a cena de dança: “É aí o quartel ou quadrado da fazenda, nome que tem um grande pátio cercado de senzalas, às vezes com alpendrada corrida em volta, e um ou dois portões que o fecham como praça d’armas. Em torno da fogueira... dançam os pretos o samba com um frenesi que toca o delírio.” O léxico de fechamento e controle, somado ao festejo intenso, sustenta a leitura de permissão episódica e vigiada dentro da ordem escravista, o que torna correta a alternativa B.
Tema central: festejo escravo controlado
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra por generalização histórica indevida. O texto descreve um momento de dança dentro de espaço controlado da fazenda; isso não autoriza concluir que “a escravidão [...] foi branda”. A desenvoltura corporal do festejo não funciona, no excerto, como prova de abrandamento do regime escravista.
B
Certa
A alternativa B se sustenta porque concilia os dois dados decisivos do excerto: a intensidade da dança e o enquadramento espacial de controle. O samba ocorre no “quartel ou quadrado da fazenda”, em “grande pátio cercado de senzalas” e com “portões que o fecham como praça d’armas”, o que afasta a ideia de espontaneidade livre. Ao mesmo tempo, o texto registra que “dançam os pretos o samba com um frenesi que toca o delírio”, isto é, um momento efetivo de festejo. No contexto histórico indicado pelo comando, a leitura autorizada é a de ocasião permitida e controlada.
C
Errada
A alternativa acrescenta conteúdo histórico-cultural ausente do texto. O excerto focaliza o samba dos escravos no interior da fazenda, mas não menciona início de sincretismo entre culturas negra e branca, nem apresenta as fazendas de café como origem da cultura brasileira. Essa conclusão é externa ao que foi textualizado.
D
Errada
A alternativa atribui ao narrador uma interpretação religiosa que o texto não traz. Não há marca lexical ou discursiva de “ritual umbandista disfarçado”; há descrição de dança, movimentos e frenesi corporal. Transformar essa cena em ritual religioso específico é leitura forçada, sem apoio textual.
E
Errada
A alternativa introduz uma causalidade inventada e alheia ao excerto. O texto não menciona alcoolismo, bebida, inviabilidade econômica nem exploração antieconômica da mão de obra escrava. O enunciado pede inferência a partir da cena narrativa, e essa alternativa desloca a interpretação para um tema sem base no trecho.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre festejo permitido e escravidão branda: a cena mostra intensa entrega à dança, mas o espaço “cercado” e “fechado” da fazenda impede ler essa desenvoltura como sinal de liberdade ampla ou de suavização do regime.
Dica para questões semelhantes
- Junte sempre a ação descrita ao espaço em que ela ocorre; aqui, a dança só pode ser interpretada corretamente porque acontece em área fechada da fazenda.
- Quando o comando pede leitura histórica, faça apenas a inferência que o texto suporta; não transforme uma cena particular em tese geral sobre todo o sistema.
- Elimine alternativas que tragam religião, economia ou formação cultural sem marca textual correspondente.
- Diferencie informação explícita de inferência: “sob vigilância” não está escrito, mas decorre do léxico de fechamento e controle do espaço.






