Questão 3c64f9eb-ed
Prova:CÁSPER LÍBERO 2012
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Homonímia, Paronímia, Sinonímia e Antonímia
Assinale a opção que apresenta, respectivamente, o significado das palavras
“grei”, “exógena” e “periclitar”, conforme elas são empregadas no texto:
Assinale a opção que apresenta, respectivamente, o significado das palavras
“grei”, “exógena” e “periclitar”, conforme elas são empregadas no texto:
Leia o texto a seguir e responda à questão.
Jeitinho e jeitão: uma tentativa de interpretação do caráter brasileiro
Nascido inicialmente das contradições entre uma ordem liberal formal e uma realidade
escravista, o jeitinho transformou-se em código geral de sociabilidade.
Recordo um caso pessoal, passado há muito tempo. Eu trabalhava com Celso Furtado
(rigorosamente antijeitinho), que recebia um diretor do Banco Interamericano de
Desenvolvimento, por sinal um conterrâneo seu. Este, vendo-me por perto, e julgando que
eu não era parte da conversa, pediu-me água. Pediu a primeira, a segunda e a terceira vez.
Fui obrigado a dizer-lhe que não confundisse gentileza com servilismo, e que da próxima vez
ele mesmo se servisse. Não ocorria àquele senhor que alguém que não fosse da sua grei
pudesse tomar parte de uma conversa com altos representantes da banca interamericana.
A origem do jeitinho, assim como a da cordialidade teorizada por Sérgio Buarque, se explica
pela incompletude das relações mercantis capitalistas. Parece sempre que as pessoas estão
“sobrando”. Elas são como que resquícios de relações não mercantis, não cabem no universo
da civilidade. E às pessoas que sobram pode ser pedida qualquer coisa, já que é obrigação do
dominado servir ao dominante.
Qualquer reunião brasileira está cheia de batidinhas nas costas na hora do cumprimento,
impondo logo de saída uma intimidade que é intimatória e intimidatória. Um dos
cumprimentos mais característicos de Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, é bater com as
costas da mão na barriga dos interlocutores. Mesmo em encontros formais, o primeiro gesto
de Lula ao se aproximar de qualquer pessoa é tocar-lhe a barriga.
A matriz desses gestos encontra-se evidentemente no longo período escravagista. Nele, o corpo
dos negros era propriedade, podia ser tocado e usado. O surpreendente é que esses gestos e
costumes tenham persistido ao longo de 100 anos de vigência de um capitalismo pleno.
O escravismo e a escravidão não explicam inteiramente a “longa duração” da informalidade
generalizada e dos hábitos que a acompanham. Os Estados Unidos tiveram um sistema
escravista que chegou até a organizar fazendas de criação de negros. A ruptura com o
escravismo custou à nação norte-americana uma guerra civil que deixou marcas até hoje.
Mas o jeitinho não foi o expediente que usaram para superar os problemas colocados pelo
capitalismo que avança.
Aqui, o jeitinho das classes dominantes se impôs na abolição da escravatura. Primeiro veio a
Lei do Ventre Livre: garotos e garotas negros eram libertados em meio à escravidão. Mas
como inexistia a perspectiva de terem terra, emprego ou salário, a libertação não lhes servia
para quase nada. Depois veio a Lei dos Sexagenários. Aos 60 anos, os negros que ainda estivessem vivos
eram libertados. Ora, já se sabia que a vida média de um escravo não alcançava os 40 anos.
Como mostrou Luiz Felipe de Alencastro em O Tratado dos Viventes, depois de décadas
de labuta no eito, o consumo do trabalho pelo capital não era uma metáfora: o negro
era um molambo de gente, e não um homem livre, mesmo quando libertado pela Lei dos
Sexagenários.
O que parecia cautela e previsão era, na verdade, o jeitinho (e o jeitão) em movimento.
Gradualmente, até a chamada Lei Áurea, a escravidão persistiu. Isso criou uma
superpopulação trabalhadora que o sistema produtivo não tinha como incorporar. Com a
industrialização, tão sonhada pelos modernos, o problema se agravou. Tendo que copiar
uma industrialização de matriz exógena, que tende sempre à economia do trabalho, os
excedentes populacionais cresceram exponencialmente.
Assim, o chamado trabalho informal tornou-se estrutural no capitalismo brasileiro. É ele
que regula a taxa de salários, e não as normas trabalhistas fundadas por Vargas. A partir daí
todas as burlas são permitidas e estimuladas. A pergunta que um candidato a emprego mais
ouve é: com carteira ou sem carteira? O funcionário com carteira resulta em descontos para
a Previdência. Ou, se o salário for um pouquinho melhor, até para o Imposto de Renda. A
resposta do candidato ao emprego é óbvia: sem carteira.
Quando o trabalhador ou trabalhadora que têm consciência dos seus direitos recusam o
emprego sem carteira, às vezes, escutam “malandro, não quer trabalhar”.
Em qualquer setor, em qualquer atividade, o jeitinho se impõe. O executivo de terno italiano
de grife, o apresentador da televisão e a atriz de um musical não são assalariados. São pessoas
jurídicas, PJs, unicamente para que empresas paguem menos impostos. Advogados, dentistas
e prestadores de serviços oferecem seus préstimos com ou sem recibo, e esse último é mais
barato. Bancários, telefonistas, vendedores e outras tantas categorias viram sua profissão
periclitar: eles são agora atendentes de call centers, terceirizados por grandes empresas.
O jeitinho é a regra não escrita, sem exigência legal, mas seguida ao pé da letra nas relações
micro e macrossociais. Está tão estabelecido, é tão natural que estranhá-lo (hoje menos do
que ontem, reconheça-se) pode ser entendido como pedantismo, arrogância ou ignorância:
“Nego metido a besta”, é a sentença. A não resolução da questão do trabalho, o seu
estatuto social, é no fundo a matriz do jeitinho. Simpático, ele é uma das maiores marcas do
moderno atraso brasileiro. (Francisco de Oliveira, revista piauí n. 73, outubro 2012, excerto).
Leia o texto a seguir e responda à questão.
Jeitinho e jeitão: uma tentativa de interpretação do caráter brasileiro
Nascido inicialmente das contradições entre uma ordem liberal formal e uma realidade
escravista, o jeitinho transformou-se em código geral de sociabilidade.
Recordo um caso pessoal, passado há muito tempo. Eu trabalhava com Celso Furtado
(rigorosamente antijeitinho), que recebia um diretor do Banco Interamericano de
Desenvolvimento, por sinal um conterrâneo seu. Este, vendo-me por perto, e julgando que
eu não era parte da conversa, pediu-me água. Pediu a primeira, a segunda e a terceira vez.
Fui obrigado a dizer-lhe que não confundisse gentileza com servilismo, e que da próxima vez
ele mesmo se servisse. Não ocorria àquele senhor que alguém que não fosse da sua grei
pudesse tomar parte de uma conversa com altos representantes da banca interamericana.
A origem do jeitinho, assim como a da cordialidade teorizada por Sérgio Buarque, se explica
pela incompletude das relações mercantis capitalistas. Parece sempre que as pessoas estão
“sobrando”. Elas são como que resquícios de relações não mercantis, não cabem no universo
da civilidade. E às pessoas que sobram pode ser pedida qualquer coisa, já que é obrigação do
dominado servir ao dominante.
Qualquer reunião brasileira está cheia de batidinhas nas costas na hora do cumprimento,
impondo logo de saída uma intimidade que é intimatória e intimidatória. Um dos
cumprimentos mais característicos de Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, é bater com as
costas da mão na barriga dos interlocutores. Mesmo em encontros formais, o primeiro gesto
de Lula ao se aproximar de qualquer pessoa é tocar-lhe a barriga.
A matriz desses gestos encontra-se evidentemente no longo período escravagista. Nele, o corpo
dos negros era propriedade, podia ser tocado e usado. O surpreendente é que esses gestos e
costumes tenham persistido ao longo de 100 anos de vigência de um capitalismo pleno.
O escravismo e a escravidão não explicam inteiramente a “longa duração” da informalidade
generalizada e dos hábitos que a acompanham. Os Estados Unidos tiveram um sistema
escravista que chegou até a organizar fazendas de criação de negros. A ruptura com o
escravismo custou à nação norte-americana uma guerra civil que deixou marcas até hoje.
Mas o jeitinho não foi o expediente que usaram para superar os problemas colocados pelo
capitalismo que avança.
Aqui, o jeitinho das classes dominantes se impôs na abolição da escravatura. Primeiro veio a
Lei do Ventre Livre: garotos e garotas negros eram libertados em meio à escravidão. Mas
como inexistia a perspectiva de terem terra, emprego ou salário, a libertação não lhes servia
para quase nada.
Depois veio a Lei dos Sexagenários. Aos 60 anos, os negros que ainda estivessem vivos
eram libertados. Ora, já se sabia que a vida média de um escravo não alcançava os 40 anos.
Como mostrou Luiz Felipe de Alencastro em O Tratado dos Viventes, depois de décadas
de labuta no eito, o consumo do trabalho pelo capital não era uma metáfora: o negro
era um molambo de gente, e não um homem livre, mesmo quando libertado pela Lei dos
Sexagenários.
O que parecia cautela e previsão era, na verdade, o jeitinho (e o jeitão) em movimento.
Gradualmente, até a chamada Lei Áurea, a escravidão persistiu. Isso criou uma
superpopulação trabalhadora que o sistema produtivo não tinha como incorporar. Com a
industrialização, tão sonhada pelos modernos, o problema se agravou. Tendo que copiar
uma industrialização de matriz exógena, que tende sempre à economia do trabalho, os
excedentes populacionais cresceram exponencialmente.
Assim, o chamado trabalho informal tornou-se estrutural no capitalismo brasileiro. É ele
que regula a taxa de salários, e não as normas trabalhistas fundadas por Vargas. A partir daí
todas as burlas são permitidas e estimuladas. A pergunta que um candidato a emprego mais
ouve é: com carteira ou sem carteira? O funcionário com carteira resulta em descontos para
a Previdência. Ou, se o salário for um pouquinho melhor, até para o Imposto de Renda. A
resposta do candidato ao emprego é óbvia: sem carteira.
Quando o trabalhador ou trabalhadora que têm consciência dos seus direitos recusam o
emprego sem carteira, às vezes, escutam “malandro, não quer trabalhar”.
Em qualquer setor, em qualquer atividade, o jeitinho se impõe. O executivo de terno italiano
de grife, o apresentador da televisão e a atriz de um musical não são assalariados. São pessoas
jurídicas, PJs, unicamente para que empresas paguem menos impostos. Advogados, dentistas
e prestadores de serviços oferecem seus préstimos com ou sem recibo, e esse último é mais
barato. Bancários, telefonistas, vendedores e outras tantas categorias viram sua profissão
periclitar: eles são agora atendentes de call centers, terceirizados por grandes empresas.
O jeitinho é a regra não escrita, sem exigência legal, mas seguida ao pé da letra nas relações
micro e macrossociais. Está tão estabelecido, é tão natural que estranhá-lo (hoje menos do
que ontem, reconheça-se) pode ser entendido como pedantismo, arrogância ou ignorância:
“Nego metido a besta”, é a sentença. A não resolução da questão do trabalho, o seu
estatuto social, é no fundo a matriz do jeitinho. Simpático, ele é uma das maiores marcas do
moderno atraso brasileiro. (Francisco de Oliveira, revista piauí n. 73, outubro 2012, excerto).
A
partido - estranha - ser ameaçada.
B
categoria - exterior - correr perigo.
C
laia - interior - oferecer risco.
D
distinção - superficial - oscilar.
E
espécie - norte-americana - desaparecer.
Gabarito comentado
B
Beatriz Costa Monitor com apoio de IA
Gabarito: B
Fundamento decisivo: O ponto decisivo é a leitura contextual dos vocábulos no próprio trecho, conforme o comando da questão: “grei” remete ao grupo/círculo de pertencimento, “exógena” indica origem externa e “periclitar” exprime ideia de ameaça ou perigo. A alternativa correta é a que mantém essa equivalência semântica no uso concreto do texto.
Tema central: sentido contextual vocabular
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque falha em dois vocábulos. “Partido” não corresponde a “grei” no trecho, que indica grupo ou círculo social de pertencimento, não agremiação política. “Estranha” também não traduz “exógena”, cujo sentido contextual é externa. Só “ser ameaçada” se aproxima de “periclitar”, mas a alternativa inteira precisa manter os três valores semânticos.
B
Certa
A alternativa B é a única que acerta os três itens no contexto do texto. “Categoria” funciona aqui como aproximação aceitável para o grupo ou círculo de pertencimento expresso por “grei” no trecho; “exterior” corresponde ao valor de origem externa de “exógena” na expressão “matriz exógena”; e “correr perigo” traduz corretamente “periclitar” no trecho em que profissões ficam ameaçadas pela terceirização e pela substituição de funções.
C
Errada
Está errada em todos os pontos relevantes. “Laia” introduz matiz pejorativo ausente em “grei” no texto. “Interior” contraria o sentido de “exógena”, que é externa. E “oferecer risco” troca a relação semântica de “periclitar”: no texto, a profissão corre perigo, não oferece perigo.
D
Errada
Está errada por inadequação semântica completa. “Distinção” não equivale a “grei”, porque o texto trata de pertencimento a um grupo, não de característica distintiva. “Superficial” não tem relação com “exógena”. “Oscilar” também não corresponde a “periclitar”, que exprime ameaça ou perigo, não variação.
E
Errada
Está errada por mudança indevida de sentido. “Espécie” não traduz o valor contextual de “grei”. “Norte-americana” restringe indevidamente “exógena”: o texto pede o sentido de origem externa, não uma nacionalidade específica. “Desaparecer” exagera “periclitar”, porque o trecho fala de profissão ameaçada e precarizada, não de desaparecimento consumado.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de aceitar aproximações soltas: um item até pode parecer plausível isoladamente, mas a resposta só vale se os três sinônimos preservarem o sentido contextual. Também há armadilha em associar “exógena” aos Estados Unidos por tema do texto e em trocar “correr perigo” por “oferecer perigo” no caso de “periclitar”.
Dica para questões semelhantes
- Leia o trecho imediato de cada palavra e teste uma paráfrase que preserve o sentido da frase inteira.
- Em questões com três vocábulos, elimine a alternativa que falhar em apenas um deles; o acerto tem de ser completo.
- Não troque sentido contextual por associação temática: “exógena” no trecho significa externa, não especificamente norte-americana.
- Verifique a direção da relação semântica: quem periclita corre perigo; não é quem oferece perigo.






