Questão 3be68623-8d
Prova:UNESP 2011
Disciplina:Literatura
Assunto:Escolas Literárias, Romantismo

Ser dela, não é ser escravo; mas servir a Deus, que a fez um anjo.

Com esta visão que o sertanejo tem de sua senhora, fica perfeitamente caracterizado no relato um dos traços fundamentais da literatura do Romantismo:

Instrução: A questão toma por base uma passagem do romance O sertanejo, do romântico brasileiro José de Alencar (1829-1877).

                                                      O sertanejo

      O moço sertanejo bateu o isqueiro e acendeu fogo num toro carcomido, que lhe serviu de braseiro para aquentar o ferro; e enquanto esperava, dirigiu-se ao boi nestes termos e com um modo afável:

      – Fique descansado, camarada, que não o envergonharei levando-o à ponta de laço para mostrá-lo a toda aquela gente! Não; ninguém há de rir-se de sua desgraça. Você é um boi valente e destemido; vou dar-lhe a liberdade. Quero que viva muitos anos, senhor de si, zombando de todos os vaqueiros do mundo, para um dia, quando morrer de velhice, contar que só temeu a um homem, e esse foi Arnaldo Louredo.

      O sertanejo parou para observar o boi, como se esperasse mostra de o ter ele entendido, e continuou:

      – Mas o ferro da sua senhora, que também é a minha, tenha paciência, meu Dourado, esse há de levar; que é o sinal de o ter rendido o meu braço. Ser dela, não é ser escravo; mas servir a Deus, que a fez um anjo. Eu também trago o seu ferro aqui, no meu peito. Olhe, meu Dourado. O mancebo abriu a camisa, e mostrou ao boi o emblema que ele havia picado na pele, sobre o seio esquerdo, por meio do processo bem conhecido da inoculação de uma matéria colorante na epiderme. O debuxo de Arnaldo fora estresido com o suco do coipuna, que dá uma bela tinta escarlate, com que os índios outrora e atualmente os sertanejos tingem suas redes de algodão.

      Depois de ter assim falado ao animal, como a um homem que o entendesse, o sertanejo tomou o cabo de ferro, que já estava em brasa, e marcou o Dourado sobre a pá esquerda.

      – Agora, camarada, pertence a D. Flor, e portanto quem o ofender tem de haver-se comigo, Arnaldo Louredo. Tem entendido?... Pode voltar aos seus pastos; quando eu quiser, sei onde achá-lo. Já lhe conheço o rasto.

      O Dourado dirigiu-se com o passo moroso para o mato; chegado à beira, voltou a cabeça para olhar o sertanejo, soltou um mugido saudoso e desapareceu.

      Arnaldo acreditou que o boi tinha-lhe dito um afetuoso adeus.

      E o narrador deste conto sertanejo não se anima a afirmar que ele se iludisse em sua ingênua superstição.

                                                                                           (José de Alencar. O sertanejo. Rio de Janeiro:

                                                                                  Livraria Garnier, [s.d.]. tomo II, p. 79-80. Adaptado.)

A
idealização.
B
animização.
C
escapismo.
D
condoreirismo.
E
Mal do Século.

Gabarito comentado

T
Thiago Martins Monitor com apoio de IA

Gabarito: A

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a idealização romântica da figura feminina: o enunciado pede a análise da “visão que o sertanejo tem de sua senhora”, e o trecho “Ser dela, não é ser escravo; mas servir a Deus, que a fez um anjo” a apresenta como ser exaltado, espiritualizado e superiorizado, o que fixa a alternativa A.

Tema central: idealização romântica feminina
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque a senhora é construída como figura elevada e quase sagrada. A expressão “a fez um anjo” espiritualiza a mulher, e “Ser dela, não é ser escravo” mostra devoção que a coloca acima do plano comum. Esse afastamento de uma representação realista e a elevação da figura feminina a um plano superior definem a idealização, traço central do Romantismo.
B
Errada
Animização diz respeito à atribuição de vida, alma, vontade ou traços animados a seres inanimados ou elementos da natureza. Esse não é o fenômeno cobrado no recorte da questão, que manda identificar a visão da senhora. Mesmo havendo diálogo com o boi no texto, o elemento decisivo está na caracterização da mulher como “anjo”, isto é, na idealização romântica.
C
Errada
Escapismo se relaciona à evasão da realidade, fuga para sonho, imaginação, passado ou espaços idealizados. No trecho destacado, o traço decisivo não é fuga do real, mas enaltecimento da senhora. O foco da questão está na forma de representação da figura feminina, não em evasão romântica.
D
Errada
Condoreirismo é tendência da terceira geração romântica, associada a tom grandiloquente, engajamento social e liberdade, especialmente na poesia. A passagem não apresenta esse eixo estético nem tematização social-libertária; o que aparece é a exaltação amorosa e espiritualizada da senhora. Tom elevado, por si só, não caracteriza condoreirismo.
E
Errada
Mal do Século refere-se ao ultrarromantismo marcado por tédio, pessimismo, melancolia, morbidez e subjetivismo sofrido. Nada disso estrutura o excerto. O núcleo da passagem é a devoção idealizante do sertanejo à senhora, não o desencanto existencial ou a morbidez.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: o texto traz humanização do boi, o que pode induzir à alternativa B, mas o comando recorta especificamente a visão da senhora; além disso, a palavra “anjo” pode parecer religiosidade literal, quando tecnicamente funciona como marca de idealização romântica.
Dica para questões semelhantes
  • Leia primeiro o recorte do comando: aqui, o foco era a representação da senhora, não o conjunto inteiro da narrativa.
  • Quando a figura feminina aparece exaltada, pura, angelical ou superiorizada, o critério técnico tende a ser idealização romântica.
  • Não marque traços gerais do Romantismo só porque pertencem ao mesmo período; verifique se o trecho realmente exemplifica aquele traço específico.
  • Expressões como “anjo” devem ser lidas, neste contexto, como procedimento de espiritualização e engrandecimento da figura amada.

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