Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é
mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido
uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas
que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E
voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca
tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é
que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta
e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por
mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.
(...) É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente
arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me
seja de novo a mentira de que vivo. Até agora achar-me era já ter
uma ideia de pessoa e nela me engastar: nessa pessoa
organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia o grande
esforço de construção que era viver. A ideia que eu fazia de
pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava
no chão. Mas e agora? estarei mais livre?
LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Florianópolis: Ed. UFSC, 1988. p. 5.
O fragmento acima, de autoria de Clarice Lispector, é parte
do romance A paixão segundo GH. A partir desse fragmento,
qual é a alternativa que melhor descreve a narrativa da
autora?
Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.
(...) É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Até agora achar-me era já ter uma ideia de pessoa e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia o grande esforço de construção que era viver. A ideia que eu fazia de pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. Mas e agora? estarei mais livre?
LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. Florianópolis: Ed. UFSC, 1988. p. 5.
O fragmento acima, de autoria de Clarice Lispector, é parte
do romance A paixão segundo GH. A partir desse fragmento,
qual é a alternativa que melhor descreve a narrativa da
autora?
Gabarito comentado
Tema central: Esta questão avalia interpretação de texto, especialmente a leitura de metáforas e a identificação do sentido simbólico no discurso literário. É fundamental perceber quando o texto opera no plano da figuração e da reflexão existencial, não apenas literal.
Justificativa da alternativa correta (B):
Clarice Lispector utiliza a metáfora da "terceira perna" para simbolizar algo que antes era fundamental para a personagem, mas se revelou um elemento limitador em sua identidade. A narrativa é centrada na introspecção e no questionamento existencial (“é difícil perder-se... estarei mais livre?”). De acordo com Bechara, metáforas operam deslocando significados do plano concreto ao abstrato. Aqui, não há literalidade: a autora reflete sobre a perda de antigas certezas e a busca de si mesma, validando a ideia de que a personagem experimenta um conflito interno, típico das obras claricianas.
Análise das alternativas incorretas:
A) Incorreta. Sugere uma mescla de aspectos internos com descrições de ambientes físicos. No texto, não há foco em ambiente físico; Clarice é paradigmática na introspecção, não do Regionalismo de 30 (voltado à temática regional/social).
C) Incorreta. Fala em engajamento social, o que não ocorre nessa obra. O foco nunca é a ação coletiva ou temas sociais, mas o autoconhecimento e a existência individual, conforme nota Celso Cunha em sua gramática.
D) Incorreta. Reduz a narrativa a confusão amorosa (“apaixonar-se por pessoas erradas”), o que distorce o verdadeiro sentido do título e da obra, voltados à transformação existencial e autopercepção, não a paixões convencionais.
E) Incorreta. Interpreta “terceira perna” literalmente. A alternativa ignora a metáfora, falhando na leitura do texto literário e indo contra as regras de interpretação figurada ensinadas em Cunha & Cintra (figuras de linguagem).
Estratégia para futuras questões: Sempre desconfie de interpretações literais em textos fortemente poéticos ou reflexivos. Busque o implícito e analise palavras-chave que indicam subjetividade, como "me assustava", "voltei a ser", "fazia de mim".
Conclusão: Gabarito B. A resposta correta exige leitura profunda e sensível às nuances da linguagem. Parabéns por estudar com atenção: esse olhar crítico faz toda diferença!
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