Questão 13842d5c-ec
Prova:CÁSPER LÍBERO 2010
Disciplina:Literatura
Assunto:Modernismo: Tendências contemporâneas, Escolas Literárias
Sobre o foco narrativo do romance Dois irmãos, de Milton Hatoum, é correto
afirmar que:
Sobre o foco narrativo do romance Dois irmãos, de Milton Hatoum, é correto
afirmar que:
A
O narrador não detém nenhum poder sobre a matéria narrada, esforçando-se por recuperar
os dados da memória ou reconstruindo-a pela via da imaginação, para apontar, assim, os
caminhos da fabulação romanesca.
B
O narrador em terceira pessoa garante uma visão objetivada e “aprovada” dos
acontecimentos: não se trata de alucinações. Entretanto, a linguagem sóbria e ordenada
usada por esse narrador submete o protagonista a uma atmosfera de alienação: ele mesmo
desconhece sua origem.
C
O narrador do romance estiliza uma conduta própria às classes dominadas. Como é o filho
ilegítimo de uma indígena com o filho do patrão, sua atuação é voluntariamente inoportuna
e sem credibilidade.
D
A construção narrativa é sustentada por um eixo composto de dois elementos: o anúncio e
o segredo. Assim, durante todo o relato, mantém-se a atenção do leitor por meio de indícios
aqui e ali disseminados pelo narrador, cuja identidade a princípio se desconhece e que vai introduzindo novas chaves ou prenunciando um desenlace sempre adiado.
E
A evocação e a dramatização do que já aconteceu sustentam o eixo narrativo, cuja tônica é
a interação entre o passado e o presente, com vista a transformar o futuro. Desse modo, por
meio das intervenções nostálgicas do narrador, o passado está sempre fornecendo a chave
para que o narrador-personagem possa transformar o que está por vir.
Gabarito comentado
R
Rafael de Avila NetoMonitor com apoio de IA
Gabarito: D
Fundamento decisivo: O critério decisivo é reconhecer que, em Dois irmãos, a narrativa se estrutura por um jogo de ocultação e revelação progressiva, com indícios disseminados, identidade inicialmente desconhecida e desenlace adiado; esse mecanismo, explicitado na alternativa D por “anúncio e segredo”, “indícios aqui e ali disseminados” e “desenlace sempre adiado”, corresponde ao procedimento narrativo efetivo do romance e conduz ao gabarito D.
Tema central: foco narrativo em Dois irmãos
Análise das alternativas
A
Errada
A eliminação decorre do absoluto “não detém nenhum poder sobre a matéria narrada”. Embora o romance trabalhe com memória e reconstrução, o narrador não é impotente diante da matéria narrada: ele seleciona fatos, distribui indícios, controla o ritmo das revelações e organiza a fabulação.
B
Errada
A alternativa erra ao afirmar um narrador em terceira pessoa que garantiria visão objetivada e validada dos acontecimentos. A base aponta o contrário: não se trata de voz exterior, neutra e transparente, mas de narrador implicado internamente na história familiar, com acesso desigual aos fatos e narração atravessada por segredo e reconstrução retrospectiva.
C
Errada
O erro está em converter origem social e familiar em critério de definição do foco narrativo e, além disso, em concluir que a voz do narrador seria “voluntariamente inoportuna e sem credibilidade”. A condição de filho ilegítimo e socialmente subalterno é relevante para sua posição na história, mas não autoriza desqualificar tecnicamente sua narração como estruturalmente sem credibilidade.
D
Certa
A alternativa D está correta porque descreve o funcionamento da narração no romance: o relato se organiza por segredo, distribuição gradual de pistas, ocultação inicial da posição identitária do narrador e retardamento da elucidação. Isso corresponde a um narrador internamente implicado na história, cuja narração recompõe o passado e controla a liberação das informações ao longo do texto.
E
Errada
A alternativa aproveita um dado parcial verdadeiro — a interação entre passado e presente —, mas erra no ponto decisivo ao atribuir ao relato a finalidade de transformar o futuro por meio de intervenções nostálgicas do narrador-personagem. A base afirma que o eixo do romance está na rememoração, reconstrução e elucidação gradual de segredos familiares, não em um projeto narrativo de intervenção no porvir.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre narrativa de memória e falta de controle do narrador, além da suposição de que objetividade estilística ou menção ao passado bastariam para caracterizar o foco narrativo, quando o decisivo é o jogo de segredo, indícios e retardamento.
Dica para questões semelhantes
- Em questões sobre foco narrativo, identifique primeiro a posição do narrador em relação à história: interno e implicado não é o mesmo que externo e objetivo.
- Quando a alternativa trouxer memória, verifique se ela preserva a função organizadora do narrador; reconstrução retrospectiva não elimina controle sobre a matéria narrada.
- Dê peso especial a sinais de técnica narrativa, como segredo, pistas, revelação gradual e adiamento do esclarecimento; isso costuma ser mais decisivo que tema ou perfil social.
- Desconfie de alternativas que transformam condição social, ilegitimidade ou marginalidade em prova automática de falta de credibilidade da voz narrativa.






