Leia o texto a seguir.
“Ainda que vocês na Espanha achem um pouco forte meu casamento com uma índia, aqui isso não é,
de modo algum, uma desonra, pois a nação dos índios goza de alta estima”. É assim que, em 1571,
um comerciante espanhol do México explica sua união para um sobrinho instalado perto de Madri, em
uma época em que a Europa se dilacera: as guerras de religião devastam a França e os Países Baixos,
a noite de São Bartolomeu é iminente. Essa aliança entre um espanhol e uma índia ignora as barreiras
étnicas, sociais e culturais. Ela coloca, de uma maneira brutal, uma questão que nos preocupa talvez
ainda mais que aos contemporâneos de Montaigne, Shakespeare e Cervantes, a das mestiçagens.
(Adaptado de: BERNAND, C.; GRUZINSKI, S. História do Novo Mundo 2. As Mestiçagens. Trad. de Mary Amazonas Leite de
Barros. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006. p.9.)
Com base no texto e nos conhecimentos sobre as mestiçagens no processo de conquista e colonização
da América, considere as afirmativas a seguir.
I. Os mestiços, que começaram a nascer na América em maior número a partir de 1570, eram festejados
com grande alegria e esperança por suas famílias e comunidades, pois eram vistos como a grande
oportunidade de ascensão social familiar, pela possibilidade de aproximação dos espanhóis e de sua
cultura.
II. A história do Novo Mundo se reduziu a um enfrentamento entre civilizações europeias e civilizações
índias, duas unidades culturais desiguais em confronto, resultando na sobreposição da cultura espanhola sobre a cultura indígena, com a eliminação da cultura vencida.
III. Ainda que se considere a fala repleta de positividade do comerciante espanhol sobre sua relação
com uma índia, aos olhos das autoridades espanholas, os mestiços, oriundos desse tipo de relação,
apareciam como uma coletividade ameaçadora, portadora da insubordinação natural, “sugada no
leite materno”.
IV. As condições demográficas permitem opor várias formas de mestiçagens; frente a importantes concentrações indígenas – no México, nos Andes –, as sociedades europeias são obrigadas a levar em
conta a presença dos índios. Em áreas como a costa do Brasil, os índios que sobreviveram às epidemias são por demais dispersos ou raros para modificar a colonização.
Assinale a alternativa correta.
Gabarito comentado
Gabarito correto: C — Somente as afirmativas III e IV são corretas.
Tema central: as mestiçagens na conquista e colonização da América — sua diversidade regional, sentidos sociais e as representações legais e morais que geraram nas metrópoles. Para resolver a questão é preciso relacionar demografia, mentalidades coloniais e fontes legais/culturais sobre mestiçagem.
Resumo teórico sucinto: - A mestiçagem não foi unívoca: variou conforme densidade indígena, presença africana, economia e políticas coloniais. - Em áreas como México e Andes, grandes populações indígenas favoreceram miscigenação em contextos onde indígenas continuaram sendo relevantes social e culturalmente. - Na costa do Brasil, a alta mortalidade indígena e dispersão favoreceu relações de outro tipo (maior entrada de africanos e trabalho escravo) e menor capacidade indígena de impor formas culturais coletivas. - A elite colonial e as autoridades espanholas frequentemente viram os mestiços com desconfiança, associando-lhes caráter instável ou perigoso — ideia documentada nas crônicas, leis e discursos coloniais (ex.: comentários sobre “sangue” e conduta herdada).
Justificativa da alternativa C (III e IV corretas): - III: Corresponde à visão oficial espanhola registrada por muitos cronistas e legislações: mestiços eram percebidos como socialmente problemáticos, rostos de instabilidade e contestação — “insubordinação natural” é expressão que sintetiza esse preconceito colonial. - IV: Reflete a evidência demográfica: em regiões de forte persistência indígena (México, Andes) a presença indígena condicionou formas de colonização e mestiçagem; na costa brasileira, as epidemias e dispersão reduziram o peso demográfico indígena sobre o processo colonizador.
Por que I e II estão incorretas: - I (falsa): A afirmação generaliza positivamente a recepção dos mestiços. Nem sempre foram vistos como oportunidade de ascensão; em muitos contextos sociais a união com indígenas significava perda de prestígio e restrições legais/sociais. A valorização dependia do contexto local e temporal. - II (falsa): Reduz a história do Novo Mundo a uma simples “sobreposição” cultural. A historiografia contemporânea (p.ex. Bernand & Gruzinski) destaca processos de hibridação, negociação e persistência cultural — não uma eliminação total e linear da cultura indígena.
Dica de prova: atente a sinais temporais e geográficos no enunciado (ex.: datas como 1570; locais com altas populações indígenas). Questões sobre mestiçagem costumam exigir distinção entre percepção normativa (leis, elites) e práticas efetivas (cotidiano, contextos regionais).
Fontes recomendadas: Bernand & Gruzinski, História do Novo Mundo (vol. sobre as mestiçagens); estudos de historiadores da América Latina sobre castas e demografia colonial.
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