Questão f55e1022-e1
Prova:UCPEL 2006
Disciplina:Português
Assunto:Sintaxe, Concordância verbal, Concordância nominal

Marque a ÚNICA alternativa correta.

DR. FLORISMAL

     Florismal!... Para Eugênio, aquele nome tinha um secreto encanto. Florismal aparecia quase todas as noites, chegava muito calmo, fumando o seu charuto de tostão e ia logo sentando na cadeira de balanço. Era um homem baixo, de cabelos ralos, quase calvo. No rosto gorducho e redondo, a barba forte era sempre uma sombra azulada, mesmo quando ele se escanhoava. Os dentes eram maus e miúdos. Florismal tinha uma voz macia e uma certa dignidade de estadista. Era um espírito conciliador e gabava-se de ter muita lábia. Nasci para advogado dizia. Se eu tivesse tido mais um pouco de juízo quando moço ... Calava-se, entortava a cabeça, batia a cinza do charuto e ficava em atitude sonhadora. Decerto a ver mentalmente o seu passado, os seus erros e uma carreira perdida. Ou então pensava apenas no efeito que aquelas palavras e aquela postura podiam estar produzindo nos interlocutores. A verdade era que amigos e conhecidos de Florismal sempre o chamavam para dar sentenças, e resolver questões. Diziase que o homenzinho arranjava causas para advogados sem clientela e ganhava com isso gordas comissões. Muito figurão tirava o chapéu ao cumprimentá-lo na rua. Florismal fazia até discursos políticos. Por isso tudo, os amigos lhe chamavam Dr. Florismal. A princípio, diziam doutor com uma pontinha de ironia. Florismal aceitava o título sorrindo, entre lisonjeado e divertido. Acabou ficando mesmo Dr. Florismal. Com o tempo, os amigos que gostavam dele esqueceram que aquilo era uma brincadeira e acabaram acreditando no título.

VERÍSSIMO, Érico. Olhai os lírios do campo. Rio de Janeiro:
Editora José Aguilar, 1966

A
Haveria de ser meio-dia e meia.
B
Não sabemos onde Florismal pretende ir.
C
Lemos esta obra a mais de uma semana.
D
Ela só queria saber porque o chamavam de doutor.
E
Deverão haver muitos elogios para ele.

Gabarito comentado

F
Fernanda MartinsMonitor com apoio de IA

Gabarito: A

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a correção sintático-gramatical segundo a norma-padrão: a única alternativa integralmente correta é “Haveria de ser meio-dia e meia”, em que a locução verbal é aceita e “meia” concorda com a palavra subentendida “hora”; as demais apresentam desvio em “onde/aonde”, “há” temporal, “por que/porque” ou na concordância com o verbo impessoal “haver”.

Tema central: correção gramatical normativa
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A é a única sem infração normativa. A construção “Haveria de ser” é válida, e a expressão “meio-dia e meia” também está correta, porque “meia” equivale a “meia hora”, ficando no feminino singular. O ponto decisivo é que essa concordância não se faz com “dia”, mas com “hora” subentendida.
B
Errada
A alternativa é eliminada pela distinção normativa exigida em prova entre “onde” e “aonde”. Como há verbo de movimento (“ir”), a forma cobrada como correta é “aonde”, com ideia de destino. A base registra que, embora no uso real haja flutuação, isso não altera a exigência normativa da questão.
C
Errada
Há erro na expressão de tempo decorrido. Para indicar passado decorrido, a norma-padrão usa o verbo “haver”: o correto seria “há mais de uma semana”. A preposição “a” não atende a esse valor temporal nesse caso.
D
Errada
O erro está na grafia de “porque”. Em “queria saber porque o chamavam de doutor”, há pergunta indireta; por isso, a forma exigida é “por que”. “Porque” é usado em valor explicativo ou causal, o que não ocorre nessa construção.
E
Errada
A alternativa erra na concordância com o verbo “haver” no sentido de existir. Nessa função, “haver” é impessoal e deve ficar na 3.ª pessoa do singular, inclusive em locução verbal. Portanto, o correto seria “Deverá haver muitos elogios para ele”, e não “Deverão haver”.
Pegadinha da questão
A banca reuniu erros normativos muito parecidos com construções frequentes no uso corrente: “onde” com verbo de movimento, “a” no lugar de “há”, “porque” em pergunta indireta, pluralização de “haver” e a falsa impressão de que “meia” em “meio-dia e meia” estaria errada.
Dica para questões semelhantes
  • Em expressão de tempo decorrido, teste se cabe o verbo “haver”: se a ideia for passado transcorrido, a forma correta é “há”.
  • Com verbo de movimento e ideia de destino, a norma escolar costuma exigir “aonde”, não “onde”.
  • Em pergunta indireta, use “por que”; reserve “porque” para valor explicativo ou causal.
  • Se “haver” significar existir, mantenha-o no singular, mesmo quando vier em locução verbal.

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