Questão c4235032-e1
Prova:UCPEL 2008
Disciplina:Português
Assunto:Funções morfossintáticas da palavra QUE

Em “... o leito de mármore dos que ali dormem...” (parte VII, linha 3), a classe gramatical do termo sublinhado é

Leia o texto a seguir.

ANGELINA

I

    A mão de Deus passou de leve pelos seus cabelos loiros e ela adormeceu. 
    Ao pé de sua alcova, nesse dia de luto e de tristeza para os de sua casa, as roseiras amareleciam e finavam também com saudade. 
    Era quase noite... a lua pálida, como um cadáver, surgia através da montanha, atirando os primeiros raios à cabeceira da morta.

II
    Angelina expirara com um sorriso a brincar-lhe na boca cor de rosa.
    É assim que emurchece a campainha dos vales; é assim que morre a abelha que não lhe encontra no seio o último favo de mel.
    A alma da criança voara de seus lábios sorrindo e parecia adejar ainda em torno daquela cabeça emoldurada em ouro.
    É que as almas das moças bonitas são como as mariposas da noite, amam as rosas mesmo depois que se esfolham. 

III
Pobre Angelina!
    E a dor prostrara a todos naquela casa, porque ninguém supunha que ela morresse; tão linda que era, tão cheia de vida!
    A família não se animara a vê-la no leito de defunta.
    Apenas de joelhos junto à cabeceira, chorava uma pobre escrava que a trouxera aos peitos, quando pequena, e chorava com a eloqüência dessas agonias maternais que não se explicam.

IV 

    E a Nhan-nhanzinha já não podia ouvir o soluçar de sua negra velha!
    Era em vão que as lágrimas caíam sobre as mãos frias da criança; o sono dos que vão para o céu é tão suave que os próprios espíritos aprazem-se em fazê-lo eterno! 


    E quando, no outro dia, o esquife saiu, a pobre escrava deixava cair sobre a mortalha fria de Angelina um ramo de cravos brancos, que fora arrancar no jardim.

VI 

    A ponte desceu... os convidados voltaram... e a menina ficou na sua cova do cemitério velho.
    Nunca mais a alegria voltou à estância.
  Durante um ano e mais, os escravos supersticiosos imaginavam ver a figura branca e vaporosa de Nhannhanzinha, altas horas da noite, voltear sorrindo por entre as cravinas e as rosas do canteiro grande ao pé da casa!

VII

    Mas, o certo foi que, sobre a sepultura da menina, nasceram muitos cravos brancos e perfumosos, cuja essência agreste e divina embalsama o leito de mármore dos que ali dormem...     Ainda hoje mesmo, as borboletas, que perpassam pelo ninho daquelas flores, parecem ser o espírito de Angelina que se lembra, com saudade, da casa onde nasceu e para onde nunca mais voltará!

LOBO DA COSTA, Francisco. Angelina. Arauto das Letras, 8 de outubro de 1882.

A
conjunção subordinativa integrante.
B
pronome relativo.
C
pronome indefinido.
D
conjunção coordenativa explicativa.
E
nenhuma das respostas anteriores.

Gabarito comentado

A
Aline SilvaMonitor com apoio de IA

Gabarito: B

Fundamento decisivo: No trecho exato “o leito de mármore dos que ali dormem”, o “que” retoma antecedente subentendido e integra a oração subordinada adjetiva restritiva “que ali dormem”. Esse vínculo anafórico e seu valor adjetivo afastam as alternativas de natureza conjuntiva e confirmam a classificação como pronome relativo.

Tema central: pronome relativo
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque conjunção integrante introduz oração subordinada substantiva e não retoma antecedente. No trecho, há antecedente elíptico recuperável em “dos” (“daqueles”), e a oração “que ali dormem” tem valor adjetivo restritivo, não substantivo.
B
Certa
A alternativa B está correta porque, no trecho “dos que ali dormem”, o termo “que” retoma um referente implícito e introduz a oração “que ali dormem”, que caracteriza esse referente. A estrutura tem valor de oração subordinada adjetiva restritiva, o que é próprio do pronome relativo.
C
Errada
Está errada porque o valor genérico do referente não transforma “que” em pronome indefinido. A indefinição está no antecedente subentendido, não na classe de “que”. No trecho, “que” exerce papel relacional: retoma esse antecedente e introduz oração adjetiva.
D
Errada
Está errada porque não há coordenação entre orações nem sentido explicativo. A estrutura é de subordinação adjetiva dentro do grupo nominal “dos que ali dormem”, e “que” retoma antecedente, o que exclui a classificação como conjunção coordenativa explicativa.
E
Errada
Está errada porque há, sim, uma alternativa anterior correta. A estrutura “dos que ali dormem” sustenta de modo direto a classificação de “que” como pronome relativo.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: classificar automaticamente todo “que” como conjunção e não perceber que, em “dos que ali dormem”, o antecedente do relativo está subentendido, recuperável como “daqueles”.
Dica para questões semelhantes
  • Verifique se o “que” retoma um nome ou pronome, mesmo que esse antecedente esteja elíptico.
  • Se a oração introduzida por “que” caracteriza um referente, o valor tende a ser adjetivo, não substantivo.
  • Não classifique “que” como conjunção integrante só porque ele inicia uma oração; antes, teste se há retomada de antecedente.
  • Quando aparecer estrutura como “os que”, “dos que”, observe se ela admite paráfrase com “aqueles que”; isso revela o valor relativo.

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