Leia o excerto de “O Burrinho Pedrês”, publicado em
Sagarana (1946), de Guimarães Rosa, e ASSINALE A
ALTERNATIVA CORRETA.
“Apuram o passo, por entre campinas ricas, onde pastam
ou ruminam outros mil e mais bois. Mas os vaqueiros não
esmorecem nos eias e cantigas, porque a boiada ainda
tem passagens inquietantes: alarga-se e recomprime-se,
sem motivo, e mesmo dentro da multidão movediça há
giros estranhos, que não os deslocamentos normais do
gado em marcha – quando sempre alguns disputam a colocação na vanguarda, outros procuram o centro, e muitos
se deixam levar, empurrados, sobrenadando quase, com
os mais fracos rolando para os lados e os mais pesados
tardando para trás, no coice da procissão.
– Eh, boi lá! ... Eh-ê-ê-eh, boi! ... Tou! Tou! Tou...
As ancas balançam, e as vagas de dorsos, das vacas e
touros, batendo com as caudas, mugindo no meio, na massa
embolada, com atritos de couros, estralos de guampas,
estrondos e baques, e o berro queixoso do gado Junqueira,
de chifres imensos, com muita tristeza, saudade dos
campos, querência dos pastos de lá do sertão...
‘Um boi preto, um boi pintado,
cada um tem sua cor.
Cada coração um jeito
de mostrar o seu amor.’Boi bem bravo, bate baixo, bota baba, boi berrando...
Dança doido, dá de duro, dá de dentro, dá direito... Vai,
vem, volta, vem na vara, vai não volta, vai varando...”
(ROSA, João Guimarães. Sagarana. Rio de Janeiro:
Record, 1984. p. 37)
Gabarito comentado
Tema central da questão: Trata-se do processo estético literário de Guimarães Rosa, especialmente o modo como, no conto “O Burrinho Pedrês” (de Sagarana), o autor articula elementos linguísticos, formas narrativas e poéticas para criar uma linguagem única e inovadora na tradição do regionalismo brasileiro.
Justificativa da alternativa correta (A):
A alternativa A está correta pois destaca que Guimarães Rosa constrói uma representação desindividualizadora de cenas/personagens – ou seja, mostra a coletividade e o movimento do grupo (a boiada, os vaqueiros) de forma quase universal, priorizando o aspecto genérico sobre o individual. Isso se alinha à “desumanização” e “estranhamento” presentes em sua estética, além de ressaltar a linguagem poética que permeia sua prosa. O trecho evidencia essa aproximação entre prosa e poesia, valorizando ritmo, sonoridade e recursos como anáforas e paralelismos, marcas rosianas apontadas por estudiosos como Alfredo Bosi (História Concisa da Literatura Brasileira).
Análise das alternativas incorretas:
B) Sugere predominância de impressões subjetivas e nostálgicas – o texto, porém, está mais preocupado com o retrato coletivo, movente e impessoal do grupo.
C) Fala da fusão de lírica e narrativa, musicalidade e invenção linguística. Apesar de verossímil para Guimarães Rosa, não realça a ênfase na desindividualização e na coletividade ressaltadas no excerto, além de não ser o principal enfoque da questão.
D) Exagera ao dizer que a “imaginação é a faculdade essencial”, e trata as imagens como mero “ornamento”, o que reduz a complexidade da construção textual rosiana, que não prioriza enfeites, mas sim experimentação e transformação da linguagem.
E) Afirma que a linguagem rosiana é “simples e próxima” – ao contrário, o autor é reconhecido por seus neologismos e invenções estilísticas, distanciando-se do “simples” e se aproximando do complexo e elaborado.
Estratégias de resolução: Procure termos-chave como “desindividualização”, “coletividade”, “ritmo poético” ou “experiência coletiva” ao analisar alternativas sobre Guimarães Rosa. Atente para proposições que simplificam (falar em “linguagem simples” para esse autor é sempre perigoso!) ou que trocam conceitos (“ornamentação” versus construção estética profunda).
Resumo: Guimarães Rosa une o regional e o universal, revitaliza o regionalismo e inova no uso da linguagem – sempre com um olhar mais coletivo do que individual.
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