Questão c1fdc701-c2
Prova:UNESPAR 2016
Disciplina:Literatura
Assunto:Modernismo, Escolas Literárias

Leia o excerto de “O Burrinho Pedrês”, publicado em Sagarana (1946), de Guimarães Rosa, e ASSINALE A ALTERNATIVA CORRETA.

“Apuram o passo, por entre campinas ricas, onde pastam ou ruminam outros mil e mais bois. Mas os vaqueiros não esmorecem nos eias e cantigas, porque a boiada ainda tem passagens inquietantes: alarga-se e recomprime-se, sem motivo, e mesmo dentro da multidão movediça há giros estranhos, que não os deslocamentos normais do gado em marcha – quando sempre alguns disputam a colocação na vanguarda, outros procuram o centro, e muitos se deixam levar, empurrados, sobrenadando quase, com os mais fracos rolando para os lados e os mais pesados tardando para trás, no coice da procissão. – Eh, boi lá! ... Eh-ê-ê-eh, boi! ... Tou! Tou! Tou... As ancas balançam, e as vagas de dorsos, das vacas e touros, batendo com as caudas, mugindo no meio, na massa embolada, com atritos de couros, estralos de guampas, estrondos e baques, e o berro queixoso do gado Junqueira, de chifres imensos, com muita tristeza, saudade dos campos, querência dos pastos de lá do sertão...
‘Um boi preto, um boi pintado,
cada um tem sua cor.
Cada coração um jeito
de mostrar o seu amor.’
Boi bem bravo, bate baixo, bota baba, boi berrando... Dança doido, dá de duro, dá de dentro, dá direito... Vai, vem, volta, vem na vara, vai não volta, vai varando...”

(ROSA, João Guimarães. Sagarana. Rio de Janeiro: Record, 1984. p. 37)

A
O processo estético literário de Guimarães Rosa se constrói por meio da propensão à representação genérica e desindividualizadora de cenas e personagens, baseada no senso de desumanização da existência, revitalizando não só o regionalismo brasileiro como também os recursos da expressão poética;
B
A narrativa se constrói por meio do registro das impressões que a realidade sertaneja desperta no espírito do narrador no momento em que a mesma se verifica. Nesse caso, as impressões conduzem a repercussões afetivas profundas, que levam a um estado de nostalgia;
C
A narrativa se constrói por meio da abolição das fronteiras entre narrativa e lírica, por isso há uma imersão na musicalidade da fala sertaneja, que o autor procura fixar no ritmo de uma construção frasal na qual soam cadências populares, folclóricas e medievais, demonstrando que em Sagarana já é perceptível o trabalho elaborado da linguagem e o inventário dos processos da língua;
D
O processo estético literário de Guimarães Rosa se constrói por meio da teoria de que a imaginação é a faculdade essencial do artista, porque lhe permite recriar a realidade segundo um novo plano. Assim, revitaliza não só o regionalismo brasileiro como também os recursos da expressão poética, com a crença de que as imagens são o ornamento essencial para revelação da realidade profunda das coisas;
E
A narrativa se constrói por meio da elaboração de uma linguagem simples e próxima da realidade, que visa representar a oralidade da fala sertaneja. Dessa forma, a realidade é interpretada como um todo orgânico em que a natureza e o homem estão intimamente associados e sujeitos aos mesmos princípios, leis e finalidades, demonstrando que em Sagarana já é perceptível os fundamentos estéticos da obra de Guimarães Rosa.

Gabarito comentado

J
Juan TorresMonitor do Qconcursos

Tema central da questão: Trata-se do processo estético literário de Guimarães Rosa, especialmente o modo como, no conto “O Burrinho Pedrês” (de Sagarana), o autor articula elementos linguísticos, formas narrativas e poéticas para criar uma linguagem única e inovadora na tradição do regionalismo brasileiro.

Justificativa da alternativa correta (A):

A alternativa A está correta pois destaca que Guimarães Rosa constrói uma representação desindividualizadora de cenas/personagens – ou seja, mostra a coletividade e o movimento do grupo (a boiada, os vaqueiros) de forma quase universal, priorizando o aspecto genérico sobre o individual. Isso se alinha à “desumanização” e “estranhamento” presentes em sua estética, além de ressaltar a linguagem poética que permeia sua prosa. O trecho evidencia essa aproximação entre prosa e poesia, valorizando ritmo, sonoridade e recursos como anáforas e paralelismos, marcas rosianas apontadas por estudiosos como Alfredo Bosi (História Concisa da Literatura Brasileira).

Análise das alternativas incorretas:

B) Sugere predominância de impressões subjetivas e nostálgicas – o texto, porém, está mais preocupado com o retrato coletivo, movente e impessoal do grupo.

C) Fala da fusão de lírica e narrativa, musicalidade e invenção linguística. Apesar de verossímil para Guimarães Rosa, não realça a ênfase na desindividualização e na coletividade ressaltadas no excerto, além de não ser o principal enfoque da questão.

D) Exagera ao dizer que a “imaginação é a faculdade essencial”, e trata as imagens como mero “ornamento”, o que reduz a complexidade da construção textual rosiana, que não prioriza enfeites, mas sim experimentação e transformação da linguagem.

E) Afirma que a linguagem rosiana é “simples e próxima” – ao contrário, o autor é reconhecido por seus neologismos e invenções estilísticas, distanciando-se do “simples” e se aproximando do complexo e elaborado.

Estratégias de resolução: Procure termos-chave como “desindividualização”, “coletividade”, “ritmo poético” ou “experiência coletiva” ao analisar alternativas sobre Guimarães Rosa. Atente para proposições que simplificam (falar em “linguagem simples” para esse autor é sempre perigoso!) ou que trocam conceitos (“ornamentação” versus construção estética profunda).

Resumo: Guimarães Rosa une o regional e o universal, revitaliza o regionalismo e inova no uso da linguagem – sempre com um olhar mais coletivo do que individual.

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