Questão b7e2b546-e0
Prova:UEPB 2011, UEPB 2011
Disciplina:Literatura
Assunto:Modernismo, Escolas Literárias

O nome da rapsódia é Macunaíma, mas não é só Macunaíma. Mario de Andrade quis dizer alguma coisa do seu protagonista e acrescentou ao título um atributo paradoxal: O herói sem nenhum caráter. O nome, Macunaíma, centro da rapsódia. O epíteto, herói. A diferença está na cauda de cada proposição: no começo, sem nenhum caráter; no fim, de nossa gente. O que se pode inferir é a presença viva, no autor, de duas motivações tão fortes que se converteram em molas da composição da obra: a) por um lado, o desejo de contar e cantar episódios em torno de uma figura lendária que o fascinara pelos mais diversos motivos e que trazia em si os atributos do herói, entendido no senso mais lato possível de um ser entre humano e mítico, que desempenha certos papéis, vai em busca de um bem essencial, arrosta perigos, sofre mudanças extraordinárias, enfim, vence ou malogra. b) por outro lado, o desejo não menos imperioso de pensar o povo brasileiro, nossa gente, percorrendo as trilhas cruzadas ou superpostas da sua existência selvagem, colonial e moderna, à procura de uma identidade que, de tão plural que é, beira a surpresa e a indeterminação; daí ser o herói sem nenhum caráter. Compreender Macunaíma é sondar ambas as motivações: a de narrar, que é lúdica e estética; a de interpretar, que é histórica e ideológica.

BOSI. A. Situação de Macunaíma. In: ANDRADE. M. Macunaíma. São Paulo: Scipione Cultural, 1997 (adaptado).


Com base no fragmento acima do crítico literário Alfredo Bosi é possível inferir que o Macunaíma de Mário de Andrade

A
centra-se na figura de um herói mitológico, capaz de proezas mágicas, cujo contato com o real serve apenas para aceder a realidades sobrehumanas, longe do mundo desumanizador que caracteriza o Brasil da década de 20 do século passado.
B
postula um retorno a um Brasil onde predominavam culturas rurais e populares, vivendo em idílio com uma natureza selvagem e acolhedora.
C
na efervescente década de 20 do século passado, em que a literatura brasileira procurava pensar o Brasil com base nas mudanças profundas por que passava a nação, é um romance lúdico à moda romântica, não contaminado pelo clima político-ideológico que dominou a obra de seus contemporâneos.
D
constrói um conceito de identidade brasileira e interamericana que põe em cena diversas tradições (européia, negra e indígena, popular e erudita, arcaica e moderna), cujo herói “sem nenhum caráter” não pode ser reduzido a um nacionalismo romântico redutor e xenófobo.
E
utiliza-se do recurso da diversidade linguística e folclórica com o fim de ironizar o caos cultural que a influência das vanguardas europeias, mal digeridas por aqui, deixou na literatura do período, alvo da crítica de Mário em seu livro de poemas Paulicéia desvairada.

Gabarito comentado

S
Sofia LopezMonitor com apoio de IA

Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o trecho de Bosi que define a obra como tentativa de “pensar o povo brasileiro, nossa gente, percorrendo as trilhas cruzadas ou superpostas da sua existência selvagem, colonial e moderna, à procura de uma identidade que, de tão plural que é, beira a surpresa e a indeterminação”; ele exige leitura de pluralidade e recusa de simplificação idílica ou puramente mítica.

Tema central: Identidade plural em Macunaíma
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque reduz a obra à figura de um herói mitológico voltado a “realidades sobrehumanas” e afasta seu vínculo com a realidade brasileira. Isso contraria o ponto central do fragmento: além da dimensão lendária, há o “desejo não menos imperioso de pensar o povo brasileiro”, em chave “histórica e ideológica”.
B
Certa
A alternativa B deve ser assinalada por imposição do gabarito oficial. Contudo, a própria base técnico-conceitual registra conflito entre esse gabarito e o fragmento de Bosi, porque o texto não sustenta “retorno” a um Brasil idílico, rural e harmonioso com a natureza. O fragmento fala em pensar o povo brasileiro por trilhas “selvagem, colonial e moderna”, com identidade “plural” e “indeterminada”. Portanto, a correção de B decorre da vinculação obrigatória ao gabarito oficial, não de aderência conceitual plena ao texto-base.
C
Errada
Está errada porque afirma que a obra é “não contaminada pelo clima político-ideológico”, quando o trecho de Bosi diz expressamente que uma das motivações de Macunaíma é “a de interpretar, que é histórica e ideológica”. O aspecto lúdico não exclui essa dimensão; os dois planos coexistem.
D
Errada
Tecnicamente, é a alternativa que melhor se ajusta ao fragmento, porque reconhece identidade plural, cruzamento de tradições e rejeição de simplificação nacionalista. Isso coincide com os trechos sobre “trilhas cruzadas ou superpostas” e identidade que “beira a surpresa e a indeterminação”. Ainda assim, deve ser dada como incorreta exclusivamente por restrição expressa do gabarito oficial.
E
Errada
Está errada porque atribui à diversidade linguística e folclórica a função específica de ironizar um “caos cultural” produzido por vanguardas europeias mal assimiladas, sentido que não aparece no fragmento. No texto-base, essa pluralidade serve à articulação entre narrativa mítica e interpretação da formação brasileira, não a uma sátira principal das vanguardas.
Pegadinha da questão
A confusão real está em associar folclore, oralidade e matéria popular a um retorno idílico ao Brasil rural. O fragmento de Bosi vai em direção oposta: pluralidade, cruzamento histórico de matrizes e indeterminação identitária.
Dica para questões semelhantes
  • Se o texto-base explicita duas motivações da obra, elimine alternativas que absolutizem apenas uma delas.
  • Expressões como “plural”, “trilhas cruzadas” e “indeterminação” excluem leituras homogêneas, idílicas ou puristas da identidade nacional.
  • Não confunda presença de mito e folclore com fuga do real; verifique se o texto também atribui função histórica e ideológica à obra.

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