Questão 77ef44ea-af
Prova:UFU-MG 2010
Disciplina:Literatura
Assunto:Modernismo, Escolas Literárias

Leia os textos abaixo.

A CASA

Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas.

Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de
purpurina.
Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e programas de circo.
Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim dos tempos.
No quarto, uma mãe que está sempre parindo a última filha.
Na sala de jantar, uma tia que lustra cuidadosamente o seu próprio caixão.
Na copa, uma prima que passa a ferro todas as mortalhas da família.
Na cozinha, uma avó que conta noite e dia histórias do outro mundo.
No quintal, um preto velho que morreu na Guerra do Paraguai rachando lenha.
E no telhado um menino medroso que espia todos eles; só que está vivo:
trouxe-o até ali o pássaro dos sonhos.
Deixem o menino dormir, mas vendam a casa, vendam-na depressa.
Antes que ele acorde e se descubra também morto.

PAES, J. P. Prosas seguidas de Odes mínimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p.33.

EVOCAÇÃO DO RECIFE [fragmento]

Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois –
Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância

A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado
[e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras, mexericos, namoros
[risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:

Coelho sai!
Não sai!
[...]
BANDEIRA, M. Melhores poemas de Manuel Bandeira. 16. ed. São Paulo: Global, 2004. p.92.

Todas as alternativas a seguir contêm elementos comuns a ambos os poemas, EXCETO:

A
ênfase na visão subjetiva do espaço.
B
recordação afetiva de personagens da infância.
C
utilização de linguagem mais prosaica.
D
presença de uma voz lírica na primeira pessoa.

Gabarito comentado

J
Julia SilvaMonitor com apoio de IA

Gabarito: D

Fundamento decisivo: O comando pede o elemento que não é comum aos dois poemas. O traço decisivo é a voz lírica em primeira pessoa: ela aparece explicitamente em "Evocação do Recife", com marcas como "aprendi", "minha infância" e "eu brincava", mas não em "A casa", que organiza a enunciação sem marca verbal equivalente de eu lírico em primeira pessoa. Por isso, a alternativa D é a exceção.

Tema central: eu lírico e comparação
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada como resposta porque não é a exceção. Nos dois poemas, o espaço é subjetivado: em "A casa", a casa aparece como espaço fantasmático, afetivo e imaginativo; em "Evocação do Recife", a cidade é filtrada pela memória pessoal, como em "Recife da minha infância". O critério decisivo é que o espaço, em ambos, não é apresentado de modo objetivo e neutro.
B
Errada
Está errada como resposta porque também não é a exceção. Os dois textos constroem o espaço por meio de personagens associados ao passado e a um universo memorial: em Paes, familiares e figuras domésticas como "avô", "tio", "pai", "mãe", "tia", "prima", "avó"; em Bandeira, figuras do convívio infantil e da rua, como "dona Aninha Viegas", "Totônio Rodrigues" e as "famílias" na calçada. A base registra que essa alternativa admite alguma elasticidade interpretativa em "A casa", porque a infância não é nomeada tão diretamente quanto em Bandeira, mas o texto sustenta a evocação afetiva de figuras familiares ligadas a um universo memorial e infantil.
C
Errada
Está errada como resposta porque não é a exceção. Ambos os poemas usam linguagem mais prosaica, com sintaxe simples, enumeração, fraseado próximo da fala e vocabulário cotidiano. O critério de eliminação é o afastamento, nos dois textos, de uma dicção grandiloquente ou predominantemente rebuscada.
D
Certa
A alternativa D é a correta porque a presença de voz lírica na primeira pessoa não se verifica nos dois textos. No poema de Manuel Bandeira, há marcas linguísticas inequívocas de primeira pessoa: "aprendi", "minha infância" e "eu brincava". Já em "A casa", de José Paulo Paes, a enunciação se organiza por enumeração de ambientes e figuras ligadas à casa, sem essas marcas explícitas de primeira pessoa. Como o enunciado exige um traço comum aos dois poemas e pede a exceção, D é a única que não se sustenta em ambos.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre subjetividade e primeira pessoa: o fato de um poema ser memorial, afetivo e interiorizado não significa que ele apresente marcas explícitas de eu lírico em primeira pessoa.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o enunciado pedir elemento comum, confirme o traço em ambos os textos, não apenas por impressão geral.
  • Diferencie subjetivação do espaço de marca linguística de primeira pessoa: uma não exige a outra.
  • Em comparação de poemas, procure sinais textuais objetivos da enunciação, como verbos e pronomes, antes de concluir sobre o eu lírico.
  • Não descarte linguagem prosaica só porque o texto é poético; verifique sintaxe, vocabulário e tom.

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