Questão 71daa191-df
Prova:UFMT 2006
Disciplina:Literatura
Assunto:Modernismo, Escolas Literárias
A respeito do processo de narração de Grande sertão: veredas, pode-se afirmar que Riobaldo, o narrador,
A respeito do processo de narração de Grande sertão: veredas, pode-se afirmar que Riobaldo, o narrador,
Leia os trechos da obra Grande sertão: veredas, publicada há 50 anos, do escritor mineiro
Guimarães Rosa – geração de 45 –
Eu ouvi aquilo demais. O pacto! Se diz – o senhor sabe. Bobéia. Ao que a pessoa vai, em meia-noite, a uma encruzilhada,
e chama fortemente o Cujo – e espera. Se sendo, há-de que vem um pé-de-vento, sem razão, e arre se comparece uma
porca com ninhada de pintos, se não for uma galinha puxando barrigada de leitões. Tudo errado, remedante, sem
completação... O senhor imaginalmente percebe? O crespo – a gente se retém – então dá um cheiro de breu queimado. E o
dito – o Coxo – toma espécie, se forma! Carece de se conservar coragem. Se assina o pacto. Se assina com o sangue de
pessoa. O pagar é alma. Muito mais depois. O senhor vê, superstição parva? Estornadas!... Provei. Introduzi. (p.45)
O demo, tive raiva dele? Pensei nele? Em vezes. O que era em mim valentia, não pensava; e o que pensava produzia era
dúvidas de me-enleios. Repensava, no esfriar do dia. A quando é o do sol entrar, que então até é o dia mesmo, por seu
remorso. Ou então, ainda melhor, no madrugal, logo no instante em que eu acordava e ainda não abria os olhos: eram só
os minutos, e, ali durante, em minha rede, eu preluzia tudo claro e explicado. Assim: – Tu vigia, Riobaldo, não deixa o
diabo te pôr sela... – isto eu divulgava. Aí eu queria fazer um projeto: como havia de escapulir dele, do Temba, que eu
tinha mal chamado. Ele rondava por me governar? (p.458)
(ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.)
Leia os trechos da obra Grande sertão: veredas, publicada há 50 anos, do escritor mineiro
Guimarães Rosa – geração de 45 –
Eu ouvi aquilo demais. O pacto! Se diz – o senhor sabe. Bobéia. Ao que a pessoa vai, em meia-noite, a uma encruzilhada,
e chama fortemente o Cujo – e espera. Se sendo, há-de que vem um pé-de-vento, sem razão, e arre se comparece uma
porca com ninhada de pintos, se não for uma galinha puxando barrigada de leitões. Tudo errado, remedante, sem
completação... O senhor imaginalmente percebe? O crespo – a gente se retém – então dá um cheiro de breu queimado. E o
dito – o Coxo – toma espécie, se forma! Carece de se conservar coragem. Se assina o pacto. Se assina com o sangue de
pessoa. O pagar é alma. Muito mais depois. O senhor vê, superstição parva? Estornadas!... Provei. Introduzi. (p.45)
O demo, tive raiva dele? Pensei nele? Em vezes. O que era em mim valentia, não pensava; e o que pensava produzia era
dúvidas de me-enleios. Repensava, no esfriar do dia. A quando é o do sol entrar, que então até é o dia mesmo, por seu
remorso. Ou então, ainda melhor, no madrugal, logo no instante em que eu acordava e ainda não abria os olhos: eram só
os minutos, e, ali durante, em minha rede, eu preluzia tudo claro e explicado. Assim: – Tu vigia, Riobaldo, não deixa o
diabo te pôr sela... – isto eu divulgava. Aí eu queria fazer um projeto: como havia de escapulir dele, do Temba, que eu
tinha mal chamado. Ele rondava por me governar? (p.458)
(ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.)
A
caracteriza-se pela onisciência, que garante sua certeza sobre os eventos narrados: Se diz – o senhor sabe.
B
faz um relato de fatos passados, interrompendo-se para refletir sobre sua interpretação: Ele rondava por me governar?
C
conta suas aventuras a um leitor virtual, ausente da narrativa: O senhor imaginalmente percebe?
D
utiliza o discurso indireto ao retomar a fala alheia: Tu vigia, Riobaldo, não deixa o diabo te pôr sela...
E
relata, como testemunha, as ações de outras personagens: Repensava, no esfriar do dia.
Gabarito comentado
E
Eduardo OliveiraMonitor com apoio de IA
Gabarito: B
Fundamento decisivo: Riobaldo é narrador-personagem em primeira pessoa que rememora fatos já vividos e interrompe o relato para refletir, duvidar e interpretar o que narra; nesse ponto, o trecho "Ele rondava por me governar?" é o elemento decisivo por mostrar a inflexão interrogativa e reflexiva do narrador, o que sustenta a alternativa B.
Tema central: processo de narração
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque atribui onisciência a Riobaldo. Pela base, ele é narrador-personagem, com perspectiva subjetiva e limitada, não narrador onisciente. Além disso, o trecho "Se diz – o senhor sabe" indica saber incerto, rumor ou formulação não assertiva, e não certeza plena sobre os fatos narrados.
B
Certa
A alternativa B descreve exatamente o procedimento narrativo presente nos excertos: Riobaldo reconstrói experiências já vividas e, no curso dessa rememoração, intercala dúvidas, perguntas e interpretações sobre o que aconteceu. A formulação "Ele rondava por me governar?" não acrescenta onisciência nem objetividade; ela mostra a inflexão reflexiva do narrador sobre a própria experiência, traço central da narração retrospectiva em primeira pessoa.
C
Errada
Está errada porque o destinatário do relato não é um leitor virtual ausente. O trecho "O senhor imaginalmente percebe?" evidencia um interlocutor internalizado na situação narrativa. Portanto, há um "senhor" explicitamente convocado no discurso, o que exclui a ideia de leitor abstrato externo à cena de enunciação.
D
Errada
Está errada porque o trecho citado exemplifica discurso direto, não indireto. Em "Tu vigia, Riobaldo, não deixa o diabo te pôr sela...", a fala ou autoexortação aparece reproduzida diretamente, sem mediação por verbo dicendi com subordinação, que seria característica do discurso indireto.
E
Errada
Está errada porque define Riobaldo como narrador-testemunha, quando a base o identifica como protagonista-narrador. O trecho "Repensava, no esfriar do dia." mostra interioridade, memória e consciência do próprio narrador, não relato predominante das ações de outras personagens a partir de posição marginal.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre conteúdo temático e função narrativa: a pergunta sobre o diabo pode ser lida apenas como dúvida temática, mas o ponto decisivo é que ela interrompe o relato passado para marcar a reflexão interpretativa do narrador no presente da enunciação.
Dica para questões semelhantes
- Se o enunciado perguntar pelo processo de narração, examine foco narrativo, posição do narrador e modo de enunciação, não apenas o tema narrado.
- Em primeira pessoa, diferencie narrador-personagem de narrador onisciente: subjetividade, dúvida e limitação de perspectiva afastam onisciência.
- Perguntas, comentários e interrupções dentro do relato costumam sinalizar reflexão retrospectiva do narrador sobre o vivido.
- Vocativos como "o senhor" e falas reproduzidas literalmente ajudam a distinguir interlocutor interno e discurso direto.






