Questão 6ca91e3b-eb
Prova:CÁSPER LÍBERO 2009
Disciplina:Português
Assunto:Conjunções: Relação de causa e consequência, Morfologia

“Assim, mesmo que não se produza nada imediatamente visível com o esforço do estudo, o trabalho de ordem intelectual corresponde àquela definição tanto quanto o trabalho corporal, embora seja este que leve a um resultado exteriormente perceptível, a um produto concreto ou a uma mudança de estado ou situação“. Assinale a alternativa que indica, respectivamente, o valor semântico das conjunções assinaladas. [8º parágrafo].

Leia o texto a seguir e responda à questão.


    Na linguagem cotidiana a palavra trabalho tem muitos significados. Embora pareça compreensível, como uma das formas elementares de ação dos homens, o seu conteúdo oscila. Às vezes, carregada de emoção, lembra dor, tortura, suor do rosto, fadiga. Noutras, mais que aflição e fardo, designa a operação humana de transformação da matéria natural em objeto de cultura. É o homem em ação para sobreviver e realizar-se, criando instrumentos, e com esses, todo um novo universo cujas vinculações com a natureza, embora inegáveis, se tornam opacas.
    Em quase todas as línguas da cultura europeia, trabalhar tem mais de uma significação. (...) Em português, apesar de haver labor e trabalho, é possível achar na mesma palavra trabalho ambas as significações: a de realizar uma obra que expresse o indivíduo, que lhe dê reconhecimento social e permaneça além de sua vida; e a de esforço rotineiro e repetitivo, sem liberdade, de resultado consumível e incômodo inevitável.
    No dicionário aparece em primeiro lugar o significado de aplicação das forças e faculdades humanas para alcançar determinado fim; atividade coordenada de caráter físico ou intelectual, necessária a qualquer tarefa, serviço ou empreendimento; exercício dessa atividade como ocupação permanente, ofício, profissão.
    Mas trabalho tem outros significados mais particulares, como o de esforço aplicado à produção de utilidades ou obras de arte, mesmo dissertação ou discurso. Pode significar o conjunto das discussões e deliberações de uma sociedade ou assembleia convocada para tratar de interesse público, coletivo ou particular: “Os trabalhos da assembleia do sindicato tiveram como resultado a greve”. Pode significar o serviço de uma repartição burocrática, e ainda os deveres escolares dos alunos a serem verificados pelos professores. Como pode indicar o processo do nascimento da criança: “a mulher entrou em trabalho de parto”.
    Além de atividade e exercício, trabalho também significa dificuldade e incômodo: “aqui vieram passar trabalho”; “a última enchente deu muito trabalho”. Pois junto a todas as suas significações ativas, trabalho em português, e no plural, quer dizer preocupações, desgostos e aflições. É o conteúdo que predomina em labor, mas ainda está presente em trabalho.
    Isso se compreende melhor ao descobrir que em nossa língua a palavra trabalho se origina do latim tripalium, embora outras hipóteses a associem a trabaculum. Tripalium era um instrumento feito de três paus aguçados, algumas vezes ainda munidos de pontas de ferro, usado pelos agricultores para bater o trigo, as espigas de milho, o linho, para rasgá-los e esfiapá-los. A maioria dos dicionários, contudo, registra tripalium apenas como instrumento de tortura, o que teria sido originalmente, ou se tornado depois. A tripalium se liga o verbo do latim vulgar tripaliare, que significa justamente torturar.
    Ainda que originalmente o tripalium fosse usado no trabalho do agricultor, no trato do cereal, é do uso desse instrumento como meio de tortura que a palavra trabalho significou por muito tempo – e ainda conota – algo como padecimento e cativeiro. Desse conteúdo semântico de sofrer passou-se ao de esforçar-se, laborar e obrar. O primeiro sentido teria perdurado até o início do século XV; essa evolução de sentido teria ocorrido ao mesmo tempo em outras línguas latinas, como trabajo em espanhol, traballo em catalão, travail em francês e travaglio em italiano.
    No dicionário filosófico você poderá encontrar que o homem trabalha quando põe em atividade suas forças espirituais ou corporais, tendo em mira um fim sério que deve ser realizado ou alcançado. Assim, mesmo que não se produza nada imediatamente visível com o esforço do estudo, o trabalho de ordem intelectual corresponde àquela definição tanto quanto o trabalho corporal, embora seja este que leve a um resultado exteriormente perceptível, a um produto concreto ou a uma mudança de estado ou situação.
    Todo trabalho supõe tendência para um fim e esforço. Para alguns trabalhos, esse esforço será preponderantemente físico; para outros, preponderantemente intelectual. Contudo, parece míope e interesseira essa classificação que divide trabalho intelectual e trabalho corporal. A maioria dos esforços intelectuais se faz acompanhar de esforço corporal; uso minhas mãos e os músculos do braço quando datilografo estas páginas, que vou pensando. E o pedreiro usa sua inteligência ao empilhar com equilíbrio os tijolos sobre o cimento ainda não solidificado.
    O trabalho do homem aparece cada vez mais nítido quanto mais clara for a intenção e a direção de seu esforço. Trabalho, nesse sentido, possui o significado ativo de um esforço afirmado e desejado para a realização de objetivos; até mesmo o objetivo realizado, a obra, passa a ser chamado trabalho. Trabalho é o esforço e também seu resultado: a construção como processo e ação, e o edifício pronto. (Suzana Albornoz. Texto adaptado).

A
Concessão e concessão.
B
Concessão e consequência.
C
Intensidade e condição.
D
Proporção e condição.
E
Intensidade e concessão.

Gabarito comentado

A
Alana RibeiroMonitor com apoio de IA

Gabarito: A

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o valor semântico concessivo das duas conjunções no próprio período: "Assim, mesmo que não se produza nada imediatamente visível com o esforço do estudo, o trabalho de ordem intelectual corresponde àquela definição tanto quanto o trabalho corporal, embora seja este que leve a um resultado exteriormente perceptível, a um produto concreto ou a uma mudança de estado ou situação." Nesse contexto, "mesmo que" e "embora" introduzem fatos admitidos que não anulam a oração principal; por isso, a sequência correta é concessão e concessão.

Tema central: valor semântico conjuntivo
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque as duas estruturas assinaladas exercem função concessiva no contexto. Em "mesmo que não se produza nada imediatamente visível com o esforço do estudo", admite-se a ausência de produto visível sem negar a validade da afirmação principal sobre o trabalho intelectual. Em "embora seja este que leve a um resultado exteriormente perceptível", reconhece-se uma particularidade do trabalho corporal sem desfazer a equiparação anteriormente feita. Nas duas ocorrências, há concessão.
B
Errada
Está errada porque "embora" não exprime consequência. O trecho "embora seja este que leve a um resultado exteriormente perceptível" não apresenta efeito produzido pela oração anterior; ele introduz uma ressalva concessiva. Além disso, "mesmo que", neste período, também é concessivo, não condicional nem de outro valor.
C
Errada
Está errada porque "mesmo que" não tem valor de intensidade. O bloco relevante é a locução conjuntiva "mesmo que", que introduz concessão. Também está errada a segunda classificação, porque "embora" não estabelece condição; ele marca contraste concessivo sem invalidar a oração principal.
D
Errada
Está errada porque não há relação de proporção em "mesmo que". O período não apresenta variação proporcional entre fatos; apresenta admissão de um dado que não impede a afirmação principal. Também não há condição em "embora", já que a oração introduzida por essa conjunção funciona como concessiva.
E
Errada
Está errada porque, embora acerte "embora" como concessão, erra o valor de "mesmo que". No contexto, "mesmo que" não intensifica termo algum; equivale a uma construção concessiva, pois admite a ausência de resultado visível sem afetar a definição de trabalho intelectual.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: separar indevidamente "mesmo" de "que" e ler "mesmo" como intensidade, e classificar "embora" como consequência só porque o trecho posterior menciona "resultado exteriormente perceptível". No período, as duas conjunções funcionam concessivamente.
Dica para questões semelhantes
  • Analise a locução inteira: "mesmo que" deve ser lida como bloco conjuntivo, não pela palavra "mesmo" isolada.
  • Se a oração introduz um fato admitido sem derrubar a principal, o valor é concessivo.
  • Não confunda menção a "resultado" no conteúdo da oração com valor semântico de consequência da conjunção.
  • Verbo no subjuntivo pode aparecer em concessão; isso não basta para classificar a oração como condição.

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