Leia a seguir o fragmento do poema Mundo Pequeno, de
Manoel de Barros, para responder a QUESTÃO.
Mundo Pequeno
Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
– Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença, pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? – ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
estradas –
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
agramática.
Fonte: BARROS, Manoel de. O livro das Ignorãças. In: Poesia completa. São
Paulo: Leya, 2010, p. 319-320.
O excerto do poema traz o descobrimento, inquietação e
questionamento do menino Manoel pela “doença das frases”.
É CORRETO afirmar que esta doença pode ser lida como um
desvio:
Gabarito comentado
Tema central: O poema de Manoel de Barros explora a valorização dos desvios linguísticos e das imperfeições como fonte de criatividade poética. O conceito de “agramática” remete ao uso intencional dos chamados “erros” para enriquecer a expressão e ampliar o potencial significativo da linguagem.
Comentando a alternativa correta (B):
A alternativa B destaca: “constrói uma frase saudável errando bem o idioma”. O próprio poema diz: “há que apenas saber errar bem o seu idioma”, sugerindo que os “defeitos na frase” podem gerar novos sentidos e possibilidades criativas. Segundo referências em Literatura, como presentes em Cândido (Formação da Literatura Brasileira) e em manuais de análise poética para concursos, a subversão das normas gramaticais é um recurso estilístico valorizado na poesia moderna e contemporânea. Por isso, usar o desvio de forma intencional torna-se saudável no contexto artístico, ao ampliar o universo das palavras.
Análise das alternativas incorretas:
- A) Incorreta. O texto deixa claro o prazer do menino Manoel nas leituras, especialmente quando encontra as “doenças” nas frases. Não há indicação de desgosto pela leitura, logo há uma contradição direta com o enunciado.
- C) Incorreta. O Padre Ezequiel é chamado de professor de “agramática”, termo que sugere liberdade diante das regras, e não um professor tradicional de gramática normativa.
- D) Incorreta. Apesar de a metáfora do “desvio” e dos “ariticuns maduros” remeter à ideia de encontrar novidades fora do comum, a alternativa não se conecta diretamente à interpretação da “doença das frases” como desvio linguístico, e sim a um desvio de caminho físico.
Estratégias de interpretação:
- Leia atentamente expressões-chave ("saber errar bem o seu idioma").
- Evite associações literais ou conclusões precipitadas sobre personagens e suas funções.
- Identifique metáforas e relacione-as ao tema central proposto.
Resumo: A escolha da alternativa B exige reconhecer a função artística do desvio na linguagem literária, como propõe Manoel de Barros, em sintonia com a tradição da poesia que valoriza a renovação e invenção expressiva.
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