Questão 6c7a2fda-fd
Prova:UFT 2018
Disciplina:Literatura
Assunto:Modernismo, Escolas Literárias

Leia a seguir o fragmento do poema Mundo Pequeno, de Manoel de Barros, para responder a QUESTÃO.


Mundo Pequeno

Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
– Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável,
o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da
vida um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? – ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
estradas –
Pois é nos desvios que encontra as melhores
surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
agramática.


Fonte: BARROS, Manoel de. O livro das Ignorãças. In: Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010, p. 319-320.



O excerto do poema traz o descobrimento, inquietação e questionamento do menino Manoel pela “doença das frases”.

É CORRETO afirmar que esta doença pode ser lida como um desvio:

A
para o menino Manoel que não gostava de ler.
B
que constrói uma frase saudável errando bem o idioma.
C
da língua portuguesa, porque Padre Ezequiel era professor de gramática.
D
de caminho que pode render ao menino Manoel as melhores surpresas e ariticuns maduros.

Gabarito comentado

V
Vanessa CamposMonitor do Qconcursos

Tema central: O poema de Manoel de Barros explora a valorização dos desvios linguísticos e das imperfeições como fonte de criatividade poética. O conceito de “agramática” remete ao uso intencional dos chamados “erros” para enriquecer a expressão e ampliar o potencial significativo da linguagem.

Comentando a alternativa correta (B):
A alternativa B destaca: “constrói uma frase saudável errando bem o idioma”. O próprio poema diz: “há que apenas saber errar bem o seu idioma”, sugerindo que os “defeitos na frase” podem gerar novos sentidos e possibilidades criativas. Segundo referências em Literatura, como presentes em Cândido (Formação da Literatura Brasileira) e em manuais de análise poética para concursos, a subversão das normas gramaticais é um recurso estilístico valorizado na poesia moderna e contemporânea. Por isso, usar o desvio de forma intencional torna-se saudável no contexto artístico, ao ampliar o universo das palavras.

Análise das alternativas incorretas:

  • A) Incorreta. O texto deixa claro o prazer do menino Manoel nas leituras, especialmente quando encontra as “doenças” nas frases. Não há indicação de desgosto pela leitura, logo há uma contradição direta com o enunciado.
  • C) Incorreta. O Padre Ezequiel é chamado de professor de “agramática”, termo que sugere liberdade diante das regras, e não um professor tradicional de gramática normativa.
  • D) Incorreta. Apesar de a metáfora do “desvio” e dos “ariticuns maduros” remeter à ideia de encontrar novidades fora do comum, a alternativa não se conecta diretamente à interpretação da “doença das frases” como desvio linguístico, e sim a um desvio de caminho físico.

Estratégias de interpretação:

  • Leia atentamente expressões-chave ("saber errar bem o seu idioma").
  • Evite associações literais ou conclusões precipitadas sobre personagens e suas funções.
  • Identifique metáforas e relacione-as ao tema central proposto.

Resumo: A escolha da alternativa B exige reconhecer a função artística do desvio na linguagem literária, como propõe Manoel de Barros, em sintonia com a tradição da poesia que valoriza a renovação e invenção expressiva.

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