Questão 67801622-b3
Prova:IF Sul - MG 2017
Disciplina:Português
Assunto:Uso dos conectivos, Sintaxe

Apesar de buscar melhores condições de vida na cidade, a maioria dos indígenas vive em situação de pobreza, tem dificuldade de conseguir emprego e a principal renda vem do artesanato”.

A expressão grifada, no trecho acima, estabelece uma relação de sentido marcada pela:

• A questão se refere ao Texto I

Texto I

Indígenas na cidade: pobreza e preconceito marcam condições de vida

Há muito tempo, a floresta amazônica deixou de ser o lar de milhares de indígenas. A escassez de alimentos, o desmatamento e o avanço das cidades sobre as matas são alguns fatores que motivaram povos tradicionais a migrar para áreas urbanas. Em Manaus, no Amazonas, eles podem ser encontrados em todas as regiões da cidade. A Fundação Estadual do Índio estima que de 15 a 20 mil indígenas de diversas etnias vivam em áreas urbanas amazonenses, como os sateré-mawé, apurinã, kokama, miraña, dessana, tukano e piratapuia. “Acredito que 90% dos bairros de Manaus tenham indígenas morando”, informou o presidente da Fundação Estadual do Índio, Raimundo Atroari.


Apesar de buscar melhores condições de vida na cidade, a maioria dos indígenas vive em situação de pobreza, tem dificuldade de conseguir emprego e a principal renda vem do artesanato. “Geralmente, as comunidades estão localizadas em área de risco. Nunca é numa área boa. A gente sente muita essa dificuldade de viver na cidade. A maioria dos Sateré daqui da aldeia está no trabalho informal, sem carteira assinada. A maior parte fica dentro da aldeia trabalhando com artesanato. A gente consegue gerar uma renda mais no mês de abril quando o público procura. Fora isso a gente fica dependendo de doações”, contou o tuxaua ou cacique Moisés Sateré, líder de uma comunidade no bairro da Paz, zona oeste de Manaus, onde vivem 14 famílias.


A antropóloga Lúcia Helena Rangel, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, confirma que é comum os indígenas, mesmo em áreas urbanas, viverem em comunidade. “Conforme vai passando o tempo, vem um, vem outro e mais outros, as famílias acabam se juntando em determinado bairro, ou em uma periferia que ninguém morava, e os indígenas foram morar. Você vai ver que nas grandes cidades como Manaus, Campo Grande, Porto Alegre têm bairros eminentemente indígenas, ou segmentos de bairros, ressaltou a antropóloga.”


[...]

Morar em centros urbanos sem ocultar a ancestralidade e as próprias referências é ainda uma luta para mais de 315 mil indígenas, segundo dados do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número representa 49% do total da população indígena do país.


“Há ainda forte preconceito e discriminação. E os indígenas que moram nas cidades são realmente os que enfrentam a situação assim no dia a dia, constantemente”, conta o presidente da Organização dos Índios da Cidade, de Boa Vista, Eliandro Pedro de Sousa, do povo Wapixana.


Em todo o Brasil, São Paulo é a cidade com maior população indígena, com cerca de 12 mil habitantes; seguida de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, com pouco mais de 11 mil e Salvador, com mais de 7,5 mil índios.


A antropóloga Lúcia Helena Rangel, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, destaca que desde a colonização, a presença indígena nas cidades é constante, mas, em décadas passadas, a cidade era um espaço proibido.


“Eles iam pras cidades e não diziam que eram indígenas. Ocultavam a origem e também ocultavam as referências culturais, digamos assim”, explica. De acordo com ela, o medo da discriminação e de represálias do antigo Serviço de Proteção ao Índio impedia os indígenas de se apresentarem como tal.


Foi na década de 50, com o desenvolvimento industrial, que o processo de migração para as cidades se intensificou. Moradores do campo seguiam em busca de emprego nas fábricas e, com os indígenas, não foi diferente, conta a professora.


A própria Fundação Nacional do Índio (Funai), que tem como missão promover os direitos dos povos indígenas no Brasil, sofre o preconceito e percebe a situação dos indígenas que moram nas cidades. “Essa questão do preconceito é até com os servidores [da Funai]. Se é com o servidor, imagine para o próprio indígena”, indaga o coordenador regional da Funai em Roraima, Riley Mendes.

Bianca Paiva, Maíra Heinen – repórteres do radiojornalismo – EBC – Agência Brasil, 19/04/2017.

Fonte: <http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2017-04/indigenas-na-cidade-pobreza-e-preconceito-marcam-condicao-de-vida>. Acesso em: 10 set. 2017.

A
Explicação: o deslocamento para as grandes cidades não propiciou novas oportunidades de trabalho aos indígenas.
B
Afirmação: o espaço proibido dos grandes centros transforma-se em subterfúgio para os problemas enfrentados nas regiões periféricas de onde os indígenas saem.
C
Concessão: há uma quebra de expectativa, pois a cidade grande não oferece emprego aos índios e, ainda, os marginaliza.
D
Negação: as megalópoles não são os melhores destinos para os quais essa parcela da população deve deslocar-se, visto a falta de infraestrutura que elas apresentam.

Gabarito comentado

C
Cícero MedinaMonitor do Qconcursos

Tema central da questão: Trata-se de uma questão de sintaxe e semântica, com foco nas relações estabelecidas por conjunções e locuções conjuntivas. O ponto-chave é reconhecer qual sentido está marcado pela expressão “apesar de”.

Justificativa da alternativa correta – Alternativa C (Concessão):

A expressão “apesar de”, segundo a norma-padrão e as gramáticas (como Bechara, Cunha & Cintra), introduz oração subordinada adverbial concessiva. Esse tipo de oração expressa uma circunstância que não impede a ocorrência da ação principal, mesmo sendo esperada uma consequência contrária.

Veja o trecho: “Apesar de buscar melhores condições de vida na cidade, a maioria dos indígenas vive em situação de pobreza…”

Nesse exemplo, mesmo que os indígenas busquem melhores condições, não as encontram. Ou seja, há uma quebra de expectativa: o resultado ideal não se concretiza, configurando a relação de concessão.

Portanto, a alternativa C é correta, pois reconhece a ideia de concessão, típica dessa construção sintática.

Análise das alternativas incorretas:

A) Explicação: Incorreta. “Apesar de” não estabelece explicação, mas oposição às expectativas. Explicações costumam ser indicadas por “porque”, “pois”, “já que”.

B) Afirmação: Incorreta. Afirmação indica certeza, mas o trecho apresenta oposição — uma situação que resiste frente à condição apresentada, e não uma simples afirmação.

D) Negação: Incorreta. “Apesar de” não nega, mas contrapõe situações. Negação seria marcada por “não”, “jamais”, “nunca”. Aqui, há oposição entre o que se busca e o que realmente ocorre.

Como evitar confusões similares: Observe sempre a função dos conectivos. Locuções como “apesar de”, “embora”, “ainda que” indicam concessão, isto é, introduzem uma condição que, em tese, dificultaria a realização da ação principal — mas ela ocorre mesmo assim.

Referências: Segundo Bechara (“Moderna Gramática Portuguesa”), orações concessivas “reconhecem um fato, mas ponderam que ele não impede outro”. Em sintonia, Cunha & Cintra reforçam que as subordinadas concessivas são marcadas por “apesar de”.

Resumo: A locução “apesar de” enseja concessão, mostrando que uma ação se realiza apesar de uma circunstância desfavorável. Por isso, a alternativa correta é a letra C.

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