Questão 3692091c-b7
Prova:UEPB 2010
Disciplina:Literatura
Assunto:Modernismo, Escolas Literárias
O mar e o canavial
O que o mar sim aprende do canavial:
a elocução horizontal de seu verso;
a geórgica de cordel, ininterrupta,
narrada em voz e silêncio paralelos.
O que o mar não aprende do canavial:
a veemência passional da preamar;
a mão de pilão das ondas na areia,
moída e miúda, pilada do que pilar.
O que o canavial sim aprende do mar:
o avançar em linha rasteira da onda;
o espraiar-se minucioso,de líquido,
alagando cova a cova onde se alonga.
O que o canavial não aprende do mar:
desmedido do derramar-se da cana;
o comedimento do latifúndio do mar,
que menos lastradamente se derrama.
MELO NETO. J.C. A educação pela pedra. Rio de Janeiro: Alfaguara/Objetiva, 2009
Com base no poema “O mar e o canavial” NÃO é correto afirmar:
O mar e o canavial
O que o mar sim aprende do canavial:
a elocução horizontal de seu verso;
a geórgica de cordel, ininterrupta,
narrada em voz e silêncio paralelos.
O que o mar não aprende do canavial:
a veemência passional da preamar;
a mão de pilão das ondas na areia,
moída e miúda, pilada do que pilar.
O que o canavial sim aprende do mar:
o avançar em linha rasteira da onda;
o espraiar-se minucioso,de líquido,
alagando cova a cova onde se alonga.
O que o canavial não aprende do mar:
desmedido do derramar-se da cana;
o comedimento do latifúndio do mar,
que menos lastradamente se derrama.
MELO NETO. J.C. A educação pela pedra. Rio de Janeiro: Alfaguara/Objetiva, 2009
Com base no poema “O mar e o canavial” NÃO é correto afirmar:
A
Demonstra o interesse do poeta pela construção de uma poesia voltada para a realidade em seus aspectos não subjetivos, o que o filiou
à tendência construtivista da pintura moderna que teve em Piet Mondrian e Joan Miró dois pintores dos mais admirados pelo poeta.
B
Os versos “a elocução horizontal de seu verso” e “narrada em voz e silêncios paralelos” refletem uma das principais características da
poesia cabralina, a reflexão sobre o próprio fazer poético.
C
Trata-se de um poema de forte carga visual, recorrente na poética do autor, que o transformou num dos principais precursores da poesia
concreta, ao qual o poeta concretista Haroldo de Campos chamou de “o geômetra engajado”.
D
Como era comum nos poemas da geração de 45, “O mar e o canavial” postula um olhar universalizante, não intimista e passional,
questionando a tradição da poesia nordestina muita presa à região.
E
Tematiza o nordeste brasileiro aliando a temática do romance de 30 e seu interesse pelos problemas sociais e humanos da região a uma
recusa do olhar intimista e subjetivo deste mesmo nordeste, presente em alguns romances regionalistas.
Gabarito comentado
C
Carlos AlvarezMonitor com apoio de IA
Gabarito: D
Fundamento decisivo: A alternativa D é incompatível com a base técnico-conceitual porque usa o enquadramento genérico da “geração de 45” e afirma que o poema “questiona a tradição da poesia nordestina muita presa à região”, quando o critério decisivo é justamente o contrário: João Cabral mantém o Nordeste como matéria poética, sob tratamento objetivo, construtivo e não sentimental. O título “O mar e o canavial” e o vocabulário concreto do poema confirmam essa permanência regional, tornando D a única alternativa insustentável.
Tema central: Poética cabralina e regionalidade
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa não deve ser assinalada porque é compatível com a base: ela reconhece o interesse de João Cabral por uma poesia voltada para a realidade em seus aspectos não subjetivos, o que corresponde à objetividade e ao antissentimentalismo da poesia cabralina. Também se ajusta à visualidade construtiva e às afinidades com procedimentos das artes visuais modernas. A própria base alerta que a referência a pintores específicos é formulação crítica sintética, mas isso não compromete o núcleo correto da alternativa.
B
Errada
A alternativa não deve ser assinalada porque se apoia diretamente em trechos do poema que explicitam metalinguagem. As expressões “a elocução horizontal de seu verso” e “narrada em voz e silêncio paralelos” remetem ao próprio fazer poético, com reflexão sobre “verso”, “voz” e “silêncio”. O critério técnico aqui é autorreferência ao processo de construção do poema, traço central da poesia cabralina.
C
Errada
A alternativa não deve ser assinalada porque é compatível com a base ao destacar a forte carga visual do poema e sua racionalização espacial, presentes na estrutura simétrica e no vocabulário concreto. A base admite essa alternativa como sustentável por associar João Cabral à valorização da visualidade verbal e ao construtivismo. Há alerta apenas para não tomar “precursor” em sentido historiográfico rígido e exclusivo; ainda assim, dentro da formulação crítica escolar indicada na base, a alternativa permanece defensável.
D
Certa
A alternativa D é a correta porque é a única afirmação que não se sustenta. Ela erra em dois pontos decisivos: primeiro, reduz a leitura do poema a um traço supostamente “comum” da geração de 45, quando a base exige cautela com esse enquadramento genérico no caso de João Cabral; segundo, afirma que o poema questiona uma poesia nordestina “muita presa à região”, quando o próprio texto trabalha exatamente com elementos concretos dessa matéria regional — “mar”, “canavial”, “onda”, “areia”, “cova a cova”, “latifúndio” — sem abandoná-la, apenas recusando o intimismo confessional. Em João Cabral, objetividade não significa rejeição do Nordeste, mas tratamento construtivo, visual e anti-sentimental dessa matéria.
E
Errada
A alternativa não deve ser assinalada porque está de acordo com a base ao reconhecer dois pontos compatíveis na obra de João Cabral: a tematização do Nordeste e a recusa do olhar intimista e subjetivo. O critério decisivo é que a poesia cabralina pode articular rigor formal com matéria social nordestina, em aproximação temática com vertentes do romance de 30, sem aderir ao subjetivismo. A alternativa não afirma equivalência formal entre poesia e romance; sustenta apenas essa convergência temática e crítica, que a base considera válida.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre objetividade construtiva e suposto abandono da matéria regional: em João Cabral, a recusa do intimismo não elimina o Nordeste, apenas o trata de modo concreto, visual e anti-sentimental.
Dica para questões semelhantes
- Se o texto de João Cabral traz vocabulário concreto e organização simétrica, verifique primeiro objetividade, visualidade construtiva e contenção emocional.
- Quando aparecerem termos como “verso”, “voz”, “silêncio” e “elocução”, teste a hipótese de metalinguagem antes de ler o poema como mera descrição.
- Desconfie de alternativas que usem rótulos geracionais amplos como chave total de leitura, sobretudo se eles servirem para apagar a singularidade do autor.
- Não oponha automaticamente regionalidade e rigor formal: na base cabralina, o Nordeste pode ser matéria central sem tratamento sentimental.






