Questão 298b5ca5-ec
Prova:CÁSPER LÍBERO 2011
Disciplina:Literatura
Assunto:Modernismo, Escolas Literárias

Assinale a opção que caracteriza corretamente os versos do poema Maçã, que integra a coletânea 50 poemas escolhidos pelo autor, de Manuel Bandeira, apresentados a seguir:


Por um lado te vejo como um seio murcho
Pelo outro como um ventre de cujo umbigo pende ainda
[o cordão placentário

És vermelha como o amor divino

Dentro de ti em pequenas pevides
Palpita a vida prodigiosa
Infinitamente

E quedas tão simples
Ao lado de um talher
Num quarto pobre de hotel.

A
Logo à primeira vista, o poema chama a atenção pelo aspecto gustativo. A figura da maçã impõe-se ao leitor, desde o princípio, como um objeto para o paladar.
B
A figura da maçã impõe-se ao leitor, desde o princípio, como um objeto para o olhar. O efeito geral é o de um quadro estático, onde apenas se desloca o olhar e palpita a vida latente – espécie de natureza morta.
C
A maçã é vista unicamente por fora, mediante comparações em que se distinguem, antes, suas formas por lados opostos; em seguida, a plenitude de sua cor.
D
A maçã é vista unicamente por dentro, até a intimidade das sementes e a latência de vida em seu interior.
E
A maçã é olhada diversas vezes, por partes, no todo e por dentro, até ser situada no tempo histórico, em relação a alguns eventos importantes para o poeta.

Gabarito comentado

E
Eliane BarretoMonitor com apoio de IA

Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o predomínio da visualidade e da composição espacial estática do objeto poético, evidenciado por “Por um lado te vejo... / Pelo outro...”, “És vermelha...” e pela cena final “Ao lado de um talher / Num quarto pobre de hotel”. Esse modo de construção conduz à alternativa B, porque a maçã é apresentada como objeto contemplado, com efeito pictórico próximo de uma natureza-morta, ainda que haja vida latente no interior.

Tema central: Visualidade e natureza-morta
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque atribui ao poema um eixo gustativo que não aparece no texto. Não há marcas de sabor, ingestão, apetite ou paladar. O que domina são marcas do olhar e da composição visual do objeto.
B
Certa
A alternativa B corresponde ao modo como o poema constrói a maçã: primeiro, o eu lírico a observa visualmente por perspectivas diferentes (“Por um lado te vejo... / Pelo outro...”); depois, destaca sua cor (“És vermelha...”); em seguida, alcança o interior (“Dentro de ti em pequenas pevides / Palpita a vida prodigiosa”); por fim, fixa o fruto numa cena imóvel (“Ao lado de um talher / Num quarto pobre de hotel”). Isso produz um conjunto estático e pictórico, semelhante a uma natureza-morta, sem excluir a menção à vida latente no interior.
C
Errada
Está errada porque absolutiza a exterioridade ao dizer que a maçã é vista “unicamente por fora”. Isso é contrariado diretamente por “Dentro de ti em pequenas pevides / Palpita a vida prodigiosa”, que introduz o interior do fruto.
D
Errada
Está errada porque faz a redução inversa: afirma observação “unicamente por dentro”, mas o poema começa pela forma externa vista por lados opostos, passa pela cor e termina situando a maçã no espaço ao lado de um talher. Portanto, não se limita ao interior.
E
Errada
Está errada porque acrescenta um elemento inexistente: situamento no tempo histórico e relação com eventos importantes para o poeta. O trecho final cria apenas uma localização espacial concreta — “num quarto pobre de hotel” — sem qualquer contextualização histórica ou biográfica.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: tomar “maçã” como objeto de paladar por associação automática e cair em alternativas com exclusividade (“unicamente por fora”, “unicamente por dentro”), quando o poema combina observação externa, interioridade e enquadramento espacial estático.
Dica para questões semelhantes
  • Identifique o sentido dominante pelos verbos e imagens do texto: aqui, o poema organiza a percepção pelo olhar, não pelo paladar.
  • Desconfie de termos absolutos como “unicamente” quando o próprio trecho mostra progressão de perspectivas.
  • Separe movimento interno de composição externa: a vida que “palpita” no interior não desfaz o efeito geral de cena imóvel.
  • Não transforme ambientação concreta em contexto histórico se o texto só oferece localização espacial.

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