Questão 042ea826-8d
Prova:UNESP 2010
Disciplina:Português
Assunto:Funções morfossintáticas da palavra QUE

Em todos esses contextos, o relativo que exerce a mesma função sintática nas orações de que faz parte. Indique-a.

Instrução: A questão  toma por base o seguinte fragmento do diálogo Fedro, de Platão (427-347 a.C.).

                                                                        Fedro

SÓCRATES: – Vamos então refletir sobre o que há pouco estávamos discutindo; examinaremos o que seja recitar ou escrever bem um discurso, e o que seja recitar ou escrever mal.

FEDRO: – Isso mesmo.

SÓCRATES: – Pois bem: não é necessário que o orador esteja bem instruído e realmente informado sobre a verdade do assunto de que vai tratar?

FEDRO: – A esse respeito, Sócrates, ouvi o seguinte: para quem quer tornar-se orador consumado não é indispensável conhecer o que de fato é justo, mas sim o que parece justo para a maioria dos ouvintes, que são os que decidem; nem precisa saber tampouco o que é bom ou belo, mas apenas o que parece tal – pois é pela aparência que se consegue persuadir, e não pela verdade.

SÓCRATES: – Não se deve desdenhar, caro Fedro, da palavra hábil, mas antes refletir no que ela significa. O que acabas de dizer merece toda a nossa atenção.

FEDRO: – Tens razão.

SÓCRATES: – Examinemos, pois, essa afirmação.

FEDRO: – Sim.

SÓCRATES: – Imagina que eu procuro persuadir-te a comprar um cavalo para defender-te dos inimigos, mas nenhum de nós sabe o que seja um cavalo; eu, porém, descobri por acaso uma coisa: “Para Fedro, o cavalo é o animal doméstico que tem as orelhas mais compridas”...

FEDRO: – Isso seria ridículo, querido Sócrates.

SÓCRATES: – Um momento. Ridículo seria se eu tratasse seriamente de persuadir-te a que escrevesses um panegírico do burro, chamando-o de cavalo e dizendo que é muitíssimo prático comprar esse animal para o uso doméstico, bem como para expedições militares; que ele serve para montaria de batalha, para transportar bagagens e para vários outros misteres.

FEDRO: – Isso seria ainda ridículo.

SÓCRATES: – Um amigo que se mostra ridículo não é preferível ao que se revela como perigoso e nocivo?

FEDRO: – Não há dúvida.

SÓCRATES: – Quando um orador, ignorando a natureza do bem e do mal, encontra os seus concidadãos na mesma ignorância e os persuade, não a tomar a sombra de um burro por um cavalo, mas o mal pelo bem; quando, conhecedor dos preconceitos da multidão, ele a impele para o mau caminho,– nesses casos, a teu ver, que frutos a retórica poderá recolher daquilo que ela semeou?

FEDRO: – Não pode ser muito bom fruto.

SÓCRATES: – Mas vejamos, meu caro: não nos teremos excedido em nossas censuras contra a arte retórica? Pode suceder que ela responda: “que estais a tagarelar, homens ridículos? Eu não obrigo ninguém – dirá ela – que ignore a verdade a aprender a falar. Mas quem ouve o meu conselho tratará de adquirir primeiro esses conhecimentos acerca da verdade para, depois, se dedicar a mim. Mas uma coisa posso afirmar com orgulho: sem as minhas lições a posse da verdade de nada servirá para engendrar a persuasão”.

FEDRO: – E não teria ela razão dizendo isso?

SÓCRATES: – Reconheço que sim, se os argumentos usuais provarem que de fato a retórica é uma arte; mas, se não me engano, tenho ouvido algumas pessoas atacá-la e provar que ela não é isso, mas sim um negócio que nada tem que ver com a arte. O lacônio declara: “não existe arte retórica propriamente dita sem o conhecimento da verdade, nem haverá jamais tal coisa”.

(Platão. Diálogos. Porto Alegre: Editora Globo, 1962.).

... para quem quer tornar-se orador consumado não é indispensável conhecer o que de fato é justo, mas sim o que parece justo para a maioria dos ouvintes, que são os que decidem; nem precisa saber tampouco o que é bom ou belo, mas apenas o que parece tal ...

Neste trecho da tradução da segunda fala de Fedro, observa-se uma frase com estruturas oracionais recorrentes, e por isso plena de termos repetidos, sendo notável, a este respeito, a retomada do demonstrativo o e do pronome relativo que em que de fato é justo, o que parece justo, os que decidem, o que é bom ou belo, o que parece tal.

A
Sujeito.
B
Predicativo do sujeito.
C
Adjunto adnominal.
D
Objeto direto.
E
Objeto indireto.

Gabarito comentado

V
Vera Ribeiro Mentor QconcursosMonitor com apoio de IA

Gabarito: A

Fundamento decisivo: O critério decisivo é analisar a função do relativo dentro da oração que ele introduz. Em "o que de fato é justo, o que parece justo, os que decidem, o que é bom ou belo, o que parece tal", o "que" é o termo sobre o qual recai a predicação de "é", "parece" e "decidem"; portanto, nessas orações, exerce função de sujeito, o que conduz ao gabarito A.

Tema central: função sintática de que
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque, em todos os segmentos citados, o pronome relativo "que" ocupa a posição de sujeito da oração subordinada. Isso se vê em "que é justo", "que parece justo", "que decidem", "que é bom ou belo" e "que parece tal": é de "que" que se afirma ser justo, parecer justo, decidir, ser bom ou belo, parecer tal. Logo, o relativo não funciona como complemento nem como termo qualificativo, mas como sujeito.
B
Errada
Está errada porque, nas estruturas com "é" e "parece", os predicativos são "justo", "bom", "belo" e "tal". O relativo "que" é o termo ao qual essas características são atribuídas; por isso, é sujeito, e não predicativo do sujeito.
C
Errada
Está errada porque adjunto adnominal é termo ligado a um nome para determiná-lo ou caracterizá-lo. Nos trechos citados, "que" não modifica um substantivo dentro da oração; ele ocupa função sintática vinculada ao verbo da oração relativa, especificamente a de sujeito.
D
Errada
Está errada porque "que" não aparece como complemento verbal direto em nenhum dos casos. Em "que é justo", "que parece justo", "que decidem", "que é bom ou belo" e "que parece tal", o relativo está na posição de sujeito das formas verbais, não de objeto direto.
E
Errada
Está errada porque não há preposição regendo o relativo nos segmentos citados, o que já afasta a função de objeto indireto. Além disso, o "que" não completa o sentido do verbo; ele é o sujeito de "é", "parece" e "decidem".
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre a classe do termo e sua função: muitos candidatos tratam "o que" ou "os que" como bloco indivisível e deixam de analisar o papel específico de "que" dentro da oração subordinada; além disso, nos casos com "é" e "parece", pode haver troca indevida entre sujeito e predicativo.
Dica para questões semelhantes
  • Determine a função do pronome relativo dentro da oração que ele introduz, não na oração anterior.
  • Em construções como "o que" e "os que", não trate o grupo como impedimento para a análise sintática interna de "que".
  • Se houver verbos como "é" e "parece", separe o termo de que se fala do termo que atribui característica: o primeiro é sujeito; o segundo, predicativo.
  • Verifique se o relativo está regido por preposição ou completando verbo; sem isso, não se sustenta leitura de objeto indireto, e nem todo relativo é complemento.

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