Questõesde UFAC 2009 sobre Português
*Endogamia: os casamentos e relações se dão no
mesmo grupo.
Observe o parágrafo abaixo:
“Mas que sensibilidade! Agora não apenas por causa
do quadro de uvas e peras e peixe morto brilhando
nas escamas. Sua sensibilidade incomodava sem ser
dolorosa, como uma unha quebrada. E se quisesse
podia permitir-se o luxo de se tornar ainda mais sensível, ainda podia ir mais adiante: porque era
protegida por uma situação, protegida como toda a
gente que atingiu uma posição na vida. Como uma
pessoa a quem lhe impedem de ter a sua desgraça.
Ai que infeliz que sou, minha mãe. Se quisesse
podia deitar ainda mais vinho no copo e, protegida
pela posição que alcançara na vida, emborrachar-se
ainda mais, contanto que não perdesse o brio. E
assim, mais emborrachada ainda, percorria os olhos
pelo restaurante, e que desprezo pelas pessoas secas
do restaurante, nenhum homem que fosse homem a
valer, que fosse triste. Que desprezo pelas pessoas
secas do restaurante, enquanto ela estava grossa e
pesada, generosa a mais não poder. E tudo no
restaurante tão distante um do outro como se jamais
um pudesse falar com o outro. Cada um por si, e lá
Deus por toda a gente.” (LISPECTOR, C. Devaneio
e embriaguez de uma rapariga. Laços de família.
Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p. 14-5)
Clarice Lispector se caracterizou por uma escrita
bastante sensível e precisa, em busca de uma
revelação maior do sujeito, na sua inglória
afirmação de ser. Sua capacidade de percepção do
mínimo dava a ela uma condição bastante elegante
na hora de tecer elementos capazes de propor uma
leitura da condição humana em luta consigo mesma.
No conto, Clarice se esmerou na capacidade de
atingir o alvo com mais brevidade e ambição
econômica de espaço. No parágrafo do conto acima,
o personagem é descrito tentando juntar duas
pontas, a dele e a dos outros à sua volta, no
restaurante, mas, enquanto se embriaga, não deixa
de cavar um imenso abismo entre ele e o próprio
mundo. Isso significa que:
*Endogamia: os casamentos e relações se dão no mesmo grupo.
Observe o parágrafo abaixo:
“Mas que sensibilidade! Agora não apenas por causa do quadro de uvas e peras e peixe morto brilhando nas escamas. Sua sensibilidade incomodava sem ser dolorosa, como uma unha quebrada. E se quisesse podia permitir-se o luxo de se tornar ainda mais sensível, ainda podia ir mais adiante: porque era protegida por uma situação, protegida como toda a gente que atingiu uma posição na vida. Como uma pessoa a quem lhe impedem de ter a sua desgraça. Ai que infeliz que sou, minha mãe. Se quisesse podia deitar ainda mais vinho no copo e, protegida pela posição que alcançara na vida, emborrachar-se ainda mais, contanto que não perdesse o brio. E assim, mais emborrachada ainda, percorria os olhos pelo restaurante, e que desprezo pelas pessoas secas do restaurante, nenhum homem que fosse homem a valer, que fosse triste. Que desprezo pelas pessoas secas do restaurante, enquanto ela estava grossa e pesada, generosa a mais não poder. E tudo no restaurante tão distante um do outro como se jamais um pudesse falar com o outro. Cada um por si, e lá Deus por toda a gente.” (LISPECTOR, C. Devaneio e embriaguez de uma rapariga. Laços de família. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p. 14-5)
Clarice Lispector se caracterizou por uma escrita bastante sensível e precisa, em busca de uma revelação maior do sujeito, na sua inglória afirmação de ser. Sua capacidade de percepção do mínimo dava a ela uma condição bastante elegante na hora de tecer elementos capazes de propor uma leitura da condição humana em luta consigo mesma. No conto, Clarice se esmerou na capacidade de atingir o alvo com mais brevidade e ambição econômica de espaço. No parágrafo do conto acima, o personagem é descrito tentando juntar duas pontas, a dele e a dos outros à sua volta, no restaurante, mas, enquanto se embriaga, não deixa de cavar um imenso abismo entre ele e o próprio mundo. Isso significa que:
Observe o trecho do poema abaixo:
“ASSISTE AO ENTERRO DE UM
TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O
LEVARAM AO CEMITÉRIO
– Essa cova em que estás,
com palmos medida
é a conta menor
que tiraste em vida.
– É de bom tamanho,
nem largo nem fundo
é a parte que te cabe
deste latifúndio.
– Não é cova grande,
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
– É uma cova grande
para teu pouco defunto
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
– É uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
– É uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.”
(MELO NETO, J.C. Morte e vida severina: auto de
natal pernambucano. Serial e antes. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1997. p. 159-160)
Em “Morte e vida severina”, João Cabral de
Melo Neto recupera uma tradição medieval para
traçar o percurso de mais um nordestino tangido
pela seca. Por meio dele temos o duro testemunho
de um personagem anônimo que percorre o agreste
até o Capibaribe, mostrando-nos uma geografia de
escassez e desolação que, ao final, é atenuada com
um nascimento que representa a esperança cristã na
vida. O trecho acima dramatiza o funeral de um
lavrador e as vozes declamando representam:
Observe o trecho do poema abaixo:
“ASSISTE AO ENTERRO DE UM TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O LEVARAM AO CEMITÉRIO
– Essa cova em que estás,
com palmos medida
é a conta menor
que tiraste em vida.
– É de bom tamanho,
nem largo nem fundo
é a parte que te cabe
deste latifúndio.
– Não é cova grande,
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
– É uma cova grande
para teu pouco defunto
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
– É uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
– É uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.”
(MELO NETO, J.C. Morte e vida severina: auto de natal pernambucano. Serial e antes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. p. 159-160)
Em “Morte e vida severina”, João Cabral de Melo Neto recupera uma tradição medieval para traçar o percurso de mais um nordestino tangido pela seca. Por meio dele temos o duro testemunho de um personagem anônimo que percorre o agreste até o Capibaribe, mostrando-nos uma geografia de escassez e desolação que, ao final, é atenuada com um nascimento que representa a esperança cristã na vida. O trecho acima dramatiza o funeral de um lavrador e as vozes declamando representam:
Observe as estrofes do poema abaixo:
“No deserto de Itabira
a sombra de meu pai
tomou-me pela mão.
Tanto tempo perdido.
Porém nada dizia.
Suspiro? Voo de pássaro?
Porém nada dizia.
Longamente caminhamos.
Aqui havia uma casa.
A montanha era maior.
Tantos mortos amontoados,
o tempo roendo os mortos.
E nas casas em ruína,
desprezo frio, umidade.
Porém nada dizia.
A rua que atravessava
a cavalo, de galope,
seu relógio. Sua roupa.
Seus papéis de circunstância.
Suas histórias de amor.
Há um abrir de baús
e de lembranças violentas.
Porém nada dizia.
No deserto de Itabira
as coisas voltam a existir,
irrespiráveis e súbitas.
O mercado de desejos
expõe seus tristes tesouros;
meu anseio de fugir;
mulheres nuas; remorso.
Porém nada dizia.” (...)
(ANDRADE, C.D. “Viagem na família”. José.
Reunião: 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José
Olympio, 1973. p. 72)
O poema “Viagem na família”, de Carlos
Drummond de Andrade, é uma investigação
poderosa nos subterrâneos de uma tradicional
família no interior de Minas Gerais, onde o contato
com o passado se revela por meio de imagens
provocantes, desvelando marcas de uma consciência
poética muito sensível. No final de cada estrofe, a
repetição terrível do silêncio do fantasma paterno,
que precisa ser decifrado, mas o que ela sugere:
Observe as estrofes do poema abaixo:
“No deserto de Itabira
a sombra de meu pai
tomou-me pela mão.
Tanto tempo perdido.
Porém nada dizia.
Suspiro? Voo de pássaro?
Porém nada dizia.
Longamente caminhamos.
Aqui havia uma casa.
A montanha era maior.
Tantos mortos amontoados,
o tempo roendo os mortos.
E nas casas em ruína,
desprezo frio, umidade.
Porém nada dizia.
A rua que atravessava
a cavalo, de galope,
seu relógio. Sua roupa.
Seus papéis de circunstância.
Suas histórias de amor.
Há um abrir de baús
e de lembranças violentas.
Porém nada dizia.
No deserto de Itabira
as coisas voltam a existir,
irrespiráveis e súbitas.
O mercado de desejos
expõe seus tristes tesouros;
meu anseio de fugir;
mulheres nuas; remorso.
Porém nada dizia.” (...)
(ANDRADE, C.D. “Viagem na família”. José. Reunião: 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1973. p. 72)
O poema “Viagem na família”, de Carlos
Drummond de Andrade, é uma investigação
poderosa nos subterrâneos de uma tradicional
família no interior de Minas Gerais, onde o contato
com o passado se revela por meio de imagens
provocantes, desvelando marcas de uma consciência
poética muito sensível. No final de cada estrofe, a
repetição terrível do silêncio do fantasma paterno,
que precisa ser decifrado, mas o que ela sugere:
Observe o trecho abaixo:
“Então Macunaíma enxergou numa lapa bem no
meio do rio uma cova cheia d’água. E a cova era
que nem marca dum pé gigante. Abicaram. O herói
depois de muitos gritos por causa do frio da água
entrou na cova e se lavou inteirinho. Mas a água era
encantada porque aquele buraco na lapa era marca
do pezão de Sumé, do tempo em que andava
pregando o evangelho de Jesus pra indiada
brasileira. Quando o herói saiu do banho estava
louro e de olhos azuizinhos, água lavara o pretume
dele. E ninguém não seria capaz mais de indicar
nele um filho da tribo retinta dos Tapanhumas.”
(ANDRADE, M. Macunaíma: o herói sem nenhum
caráter. 22.ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1986. p. 29-
30)
Na passagem acima, Mário de Andrade retoma
uma tradição de contar histórias, onde Macunaíma,
o herói da nossa gente, representa uma espécie de
símbolo de afirmação da nossa mestiçagem que até
então, antes do modernismo, era vista como sinal de
inferioridade. Ao sair da água encantada, porém, ele
consegue ficar branco, enquanto seus dois irmãos,
mais adiante, continuam com os traços indígenas e
negroides. Essa metáfora compõe, junto com a
forma de contar histórias:
Observe o parágrafo abaixo:
“Em 2006, foi condenado pelo crime em júri
popular. No mesmo ano, teve a sentença confirmada
pelo Tribunal de Justiça (TJ) de São Paulo e, dois
anos mais tarde, pelo Superior Tribunal de Justiça
(STJ). Como explicar o fato de que continua livre?
A resposta está, sobretudo, numa mudança
ideológica que começou a tomar corpo no Supremo
Tribunal Federal (STF) no início dos anos 2000. Até
a década de 90, o STF era composto de uma maioria
de ministros ditos conservadores – termo que – em
direito penal, indica aqueles que têm uma
interpretação rigorosa da lei, em oposição, por
exemplo, aos ‘garantistas’, mais preocupados em
assegurar os direitos fundamentais do réu.
Grossíssimo modo, conservadores seriam aqueles
que mandam prender e garantistas, ou liberais,
aqueles que mandam soltar. A partir de 2003, o colegiado de onze magistrados do STF sofreu sete
substituições. O fato de quase todos os novos
ministros serem liberais levou a que uma tese
passasse a prevalecer nas decisões do tribunal: o
princípio da presunção da inocência, segundo o qual
ninguém será considerado culpado antes que todos
os recursos da defesa sejam julgados. No tempo da
supremacia conservadora no STF, entendia-se que
uma condenação em segunda instância era suficiente
para que o réu pudesse ser preso. Agora, com a
hegemonia garantista, desde que ele tenha dinheiro
para pagar bons advogados e entrar com sucessivos
recursos na Justiça, poderá ficar solto até a palavra
final do STF, ainda que isso leve quase uma década
– como no caso de Pimenta Neves.” (DINIS, L.
Quase uma década de impunidade. Veja, São Paulo,
23 set. 2009. Brasil, p. 74)
No trecho da reportagem acima, a jornalista
procura mostrar os mecanismos de funcionamento
da justiça brasileira, a partir de um crime bárbaro e
que, quase uma década depois, continua impune. A
maneira como ela desenvolve a sua argumentação
leva em conta algumas minúcias, por meio de
termos, que procuram driblar um pouco o peso da
linguagem técnica para entender a nossa atual
cultura jurídica da impunidade. Isso acontece
porque:
Observe o parágrafo abaixo:
“Em 2006, foi condenado pelo crime em júri popular. No mesmo ano, teve a sentença confirmada pelo Tribunal de Justiça (TJ) de São Paulo e, dois anos mais tarde, pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Como explicar o fato de que continua livre? A resposta está, sobretudo, numa mudança ideológica que começou a tomar corpo no Supremo Tribunal Federal (STF) no início dos anos 2000. Até a década de 90, o STF era composto de uma maioria de ministros ditos conservadores – termo que – em direito penal, indica aqueles que têm uma interpretação rigorosa da lei, em oposição, por exemplo, aos ‘garantistas’, mais preocupados em assegurar os direitos fundamentais do réu. Grossíssimo modo, conservadores seriam aqueles que mandam prender e garantistas, ou liberais, aqueles que mandam soltar. A partir de 2003, o colegiado de onze magistrados do STF sofreu sete substituições. O fato de quase todos os novos ministros serem liberais levou a que uma tese passasse a prevalecer nas decisões do tribunal: o princípio da presunção da inocência, segundo o qual ninguém será considerado culpado antes que todos os recursos da defesa sejam julgados. No tempo da supremacia conservadora no STF, entendia-se que uma condenação em segunda instância era suficiente para que o réu pudesse ser preso. Agora, com a hegemonia garantista, desde que ele tenha dinheiro para pagar bons advogados e entrar com sucessivos recursos na Justiça, poderá ficar solto até a palavra final do STF, ainda que isso leve quase uma década – como no caso de Pimenta Neves.” (DINIS, L. Quase uma década de impunidade. Veja, São Paulo, 23 set. 2009. Brasil, p. 74)
No trecho da reportagem acima, a jornalista procura mostrar os mecanismos de funcionamento da justiça brasileira, a partir de um crime bárbaro e que, quase uma década depois, continua impune. A maneira como ela desenvolve a sua argumentação leva em conta algumas minúcias, por meio de termos, que procuram driblar um pouco o peso da linguagem técnica para entender a nossa atual cultura jurídica da impunidade. Isso acontece porque:
Observe o parágrafo abaixo:
“Começo arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás íntimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...” (ASSIS, J.M.M. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro, Tecnoprint, s.d. p. 126)
Ao final do parágrafo, o narrador trabalha com
elementos polares (pressa de envelhecer versus o
livro que anda devagar; estilo regular versus estilo
ébrio) e termina com uma gradação às avessas, pois
o seu estilo e o livro “caem”, por fim. Essa
qualidade crítica que ele dá à sua obra corresponde:
Observe o parágrafo abaixo:
“Começo arrepender-me deste livro. Não que ele me
canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir
alguns magros capítulos para esse mundo sempre é
tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o
livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa
contração cadavérica; vício grave, e aliás íntimo,
porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu
tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu
amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e
fluente, e este livro e o meu estilo são como ébrios,
guinam à direita e à esquerda, andam e param,
resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu,
escorregam e caem...” (ASSIS, J.M.M. Memórias
póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro,
Tecnoprint, s.d. p. 126)
Na passagem acima, o narrador de Machado de
Assis se apresenta, de maneira desiludida, quanto
aos caminhos da sua narração, e dá ao seu livro um
caráter demeritório e responsabiliza o leitor por isso.
Nesse caso, esta obra, que é um verdadeiro divisor
de águas na ficção brasileira, no século 19,
pretende-se por meio do domínio irônico:
Observe o parágrafo abaixo:
“Em 2006, foi condenado pelo crime em júri popular. No mesmo ano, teve a sentença confirmada pelo Tribunal de Justiça (TJ) de São Paulo e, dois anos mais tarde, pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Como explicar o fato de que continua livre? A resposta está, sobretudo, numa mudança ideológica que começou a tomar corpo no Supremo Tribunal Federal (STF) no início dos anos 2000. Até a década de 90, o STF era composto de uma maioria de ministros ditos conservadores – termo que – em direito penal, indica aqueles que têm uma interpretação rigorosa da lei, em oposição, por exemplo, aos ‘garantistas’, mais preocupados em assegurar os direitos fundamentais do réu. Grossíssimo modo, conservadores seriam aqueles que mandam prender e garantistas, ou liberais, aqueles que mandam soltar. A partir de 2003, o colegiado de onze magistrados do STF sofreu sete substituições. O fato de quase todos os novos ministros serem liberais levou a que uma tese passasse a prevalecer nas decisões do tribunal: o princípio da presunção da inocência, segundo o qual ninguém será considerado culpado antes que todos os recursos da defesa sejam julgados. No tempo da supremacia conservadora no STF, entendia-se que uma condenação em segunda instância era suficiente para que o réu pudesse ser preso. Agora, com a hegemonia garantista, desde que ele tenha dinheiro para pagar bons advogados e entrar com sucessivos recursos na Justiça, poderá ficar solto até a palavra final do STF, ainda que isso leve quase uma década – como no caso de Pimenta Neves.” (DINIS, L. Quase uma década de impunidade. Veja, São Paulo, 23 set. 2009. Brasil, p. 74)
Em qual das expressões abaixo, a jornalista dá
entrada para uma mudança de expectativa no
processo de compreensão dos termos jurídicos em
foco, de forma mais clara:
Observe o parágrafo abaixo:
“Em 2006, foi condenado pelo crime em júri popular. No mesmo ano, teve a sentença confirmada pelo Tribunal de Justiça (TJ) de São Paulo e, dois anos mais tarde, pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Como explicar o fato de que continua livre? A resposta está, sobretudo, numa mudança ideológica que começou a tomar corpo no Supremo Tribunal Federal (STF) no início dos anos 2000. Até a década de 90, o STF era composto de uma maioria de ministros ditos conservadores – termo que – em direito penal, indica aqueles que têm uma interpretação rigorosa da lei, em oposição, por exemplo, aos ‘garantistas’, mais preocupados em assegurar os direitos fundamentais do réu. Grossíssimo modo, conservadores seriam aqueles que mandam prender e garantistas, ou liberais, aqueles que mandam soltar. A partir de 2003, o colegiado de onze magistrados do STF sofreu sete substituições. O fato de quase todos os novos ministros serem liberais levou a que uma tese passasse a prevalecer nas decisões do tribunal: o princípio da presunção da inocência, segundo o qual ninguém será considerado culpado antes que todos os recursos da defesa sejam julgados. No tempo da supremacia conservadora no STF, entendia-se que uma condenação em segunda instância era suficiente para que o réu pudesse ser preso. Agora, com a hegemonia garantista, desde que ele tenha dinheiro para pagar bons advogados e entrar com sucessivos recursos na Justiça, poderá ficar solto até a palavra final do STF, ainda que isso leve quase uma década – como no caso de Pimenta Neves.” (DINIS, L. Quase uma década de impunidade. Veja, São Paulo, 23 set. 2009. Brasil, p. 74)
Em qual das expressões abaixo, a jornalista dá
entrada para uma mudança de expectativa no
processo de compreensão dos termos jurídicos em
foco, de forma mais clara:
Observe o parágrafo abaixo:
“Dia após dia, nestas últimas semanas, o público
vem se admirando com exibições de amor entre
gente que deveria se odiar. Por que estariam aos
abraços, fazendo elogios radicais uns aos outros, o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o expresidente Fernando Collor e o atual presidente do
Senado José Sarney? Lula, numa declaração
inesquecível, disse que Sarney era ‘o grande ladrão
da Nova República’; contra Collor, ele e o seu
partido se jogaram numa guerra de extermínio desde
o primeiro dia de seu governo e só sossegaram
quase três anos depois, quando o inimigo foi posto
para fora da presidência. Collor, por sua vez, disse
que Sarney era ‘um batedor de carteira’ – carteira
‘da história’, em suas palavras, o que não é tão ruim
quanto uma carteira de verdade, mas assim mesmo é
coisa pra lá de pesada. Também afirmou, na sua
disputa presidencial contra Lula, que o adversário
iria expropriar as casas e apartamentos das pessoas
se fosse eleito – isso para não falar da humilhação
pública que lhe impôs ao levar para a televisão uma
ex-companheira do atual presidente, que o acusou
de racismo e de pressão para abortar a filha que
acabariam tendo. Sarney se queixa até hoje das 1200
greves, a maioria comandada pelo PT, que teve ao
longo de seu governo, e já descreveu Collor como
‘um homem profundamente transtornado.’”
(GUZZO, J.R. Do mesmo lado. Veja, São Paulo, 19
ago. 2009. Seções, p. 142)
O autor do artigo diz que Collor havia chamado
Sarney de “o batedor de carteira”, mas a “carteira da
história”, o que amenizaria, num certo sentido, o
insulto, mas que não deixaria de ter o seu peso de
desagravo. Por outro lado, poderíamos compreender
esse último aspecto como:
Observe o parágrafo abaixo:
“Dia após dia, nestas últimas semanas, o público
vem se admirando com exibições de amor entre
gente que deveria se odiar. Por que estariam aos
abraços, fazendo elogios radicais uns aos outros, o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o expresidente Fernando Collor e o atual presidente do
Senado José Sarney? Lula, numa declaração
inesquecível, disse que Sarney era ‘o grande ladrão
da Nova República’; contra Collor, ele e o seu
partido se jogaram numa guerra de extermínio desde
o primeiro dia de seu governo e só sossegaram
quase três anos depois, quando o inimigo foi posto
para fora da presidência. Collor, por sua vez, disse
que Sarney era ‘um batedor de carteira’ – carteira
‘da história’, em suas palavras, o que não é tão ruim
quanto uma carteira de verdade, mas assim mesmo é
coisa pra lá de pesada. Também afirmou, na sua
disputa presidencial contra Lula, que o adversário
iria expropriar as casas e apartamentos das pessoas
se fosse eleito – isso para não falar da humilhação
pública que lhe impôs ao levar para a televisão uma
ex-companheira do atual presidente, que o acusou
de racismo e de pressão para abortar a filha que
acabariam tendo. Sarney se queixa até hoje das 1200
greves, a maioria comandada pelo PT, que teve ao
longo de seu governo, e já descreveu Collor como
‘um homem profundamente transtornado.’”
(GUZZO, J.R. Do mesmo lado. Veja, São Paulo, 19
ago. 2009. Seções, p. 142)
O autor do artigo trata das relações convenientes
no alto escalão da nossa república, mas faz isso de
uma maneira bastante peculiar, utilizando alguns
recursos que acabam ratificando um determinado
efeito. Poderíamos dizer que em boa parte deste
parágrafo ele:
Observe o parágrafo abaixo:
“Duas décadas sem papel higiênico ajudaram os
cubanos a encontrar uma utilidade, digamos,
escatológica para o jornal oficial do Partido
Comunista, o Granma, e para o recém-lançado
Dicionário de pensamentos de Fidel Castro, um
livrão de mais de 300 páginas muito apreciado por
suas folhas finas e macias. O uso sanitário das
publicações do governo é tão difundido que já deu
origem a uma versão bizarra da lei da oferta e da
procura: no mercado paralelo, o jornal da semana
passada é vendido pelo mesmo preço que o da
edição do dia. Na verdade, não importa a data da
publicação se a finalidade for substituir o papel
higiênico. Favorito para o asseio dos cubanos, o
Granma tem oito páginas (dezesseis às sextasfeiras) e 400 mil exemplares diários. Seus artigos,
pura ladainha comunista, são uma enorme chatice.
As notícias, distorcidas pela propaganda oficial, não
têm credibilidade. Mas o diário é bastante
valorizado pela qualidade absorvente do papel em
que é impresso e também pelas cores firmes, que
não mancham o traseiro de seus, por assim dizer,
leitores.” (TEIXEIRA, D. Até que enfim serviram
para algo. Veja, São Paulo, 9 set. 2009. Ideologia, p.
98)
A reportagem acima, ressalta, em boa parte do
texto, o aspecto irônico ao tratar de uma questão que
deveria ser, em primeiro lugar, meramente
informativa. Ao utilizar esse recurso de forma geral
ele proporciona:
Na passagem “Cada um dos seus poros é como
um restaurante onde tudo isso sai de graça. Em
troca, elas deixam seu corpo fedendo.” Existe uma
comparação quase hiperbólica de início e, a seguir,
o aspecto realçado procura:
Na passagem “Cada um dos seus poros é como um restaurante onde tudo isso sai de graça. Em troca, elas deixam seu corpo fedendo.” Existe uma comparação quase hiperbólica de início e, a seguir, o aspecto realçado procura:
Os autores da reportagem utilizam, logo no início desse parágrafo, uma metáfora para definir o ser humano enquanto organismo (“Você é um sundae polvilhado de Ovomaltine”). Logo adiante, explicam que é do ponto de vista das bactérias. Ao final, eles nos lembram que, ao nos olharmos no espelho, boa parte do que vemos não somos nós. Esses recursos da linguagem interessam para indicar:
Observe o parágrafo abaixo:
“Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia- se na presença dos brancos e julgava-se cabra.” (RAMOS, G. Vidas secas. 22.ed. São Paulo: Martins, 1969. p. 58)
Na passagem do célebre romance de Graciliano Ramos, no capítulo intitulado “Fabiano”, o narrador se esforça para tentar traçar o perfil amesquinhado do personagem, voltado para dentro de si, num universo de poucas opções. Sendo assim, o romance cumpre uma proposta de:
“Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia- se na presença dos brancos e julgava-se cabra.” (RAMOS, G. Vidas secas. 22.ed. São Paulo: Martins, 1969. p. 58)
Na passagem do célebre romance de Graciliano Ramos, no capítulo intitulado “Fabiano”, o narrador se esforça para tentar traçar o perfil amesquinhado do personagem, voltado para dentro de si, num universo de poucas opções. Sendo assim, o romance cumpre uma proposta de: